Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Micropaisagem

Micropaisagem

23
Jun17

Traços de outono

J comenta comigo que a sua mãe está tão fraca, tão diferente da mulher que sempre conheceu.

 

Foi buscá-la a casa para a levar à festa do final do ano no infantário da pequena L. Mostra-me fotografias. A menina, vestida de flor, está entre outras meninas flores e uma borboleta de vestido azul parece pairar no meio delas. Numa das imagens vê-se a avó, curvada e magra,  em primeiro plano, a assistir a uma dança das flores sob um toldo decorado de balões.

 

- Quando a fui levar a casa disse-me «Obrigado», mas de uma maneira diferente. Ouvi-a agradecer-me a vida toda, mas não assim, como alguém que sabe que já não pode fazer as coisas sem ajuda dos outros.

 

Gosto muito da mãe de J. É a pessoa mais bondosa e humilde que conheço e que conhecerei. Penso na minha mãe, que já com os filhos adultos ainda subia às figueiras para colher esses frutos que adora e que hoje mal consegue andar por causa da artrite. Penso na mãe do meu amigo C, que sempre vi ativa, e de olhar vivo, e que agora, com Parkinson, é também um esboço, um pequeno resumo da mulher que conheci.

 

 - Não me consigo habituar – diz J, emocionada.

 

- Ainda bem. Não nos podemos habituar – respondo.

 

Elas merecem que não nos habituemos. Esses traços esbatidos de quem elas foram podem doer e afligir-nos, mas isso quer dizer que estamos a fazer justiça às cores brilhantes, vivas e aos contornos bem definidos que nós sabemos que, verdadeiramente, as compõem. Isso significa que ainda as vemos como gostaram de ser.

2 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D