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Micropaisagem

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29
Jun17

Tiraram o futebol a essa criança

O jogo era só o campo. Os nossos contra os rivais. Os jogos tarde dentro, prédio contra prédio, rua contra rua, turma contra turma.

A primeira noção de heroísmo vinha desses homens que vestiam com orgulho a camisola da sua equipa perante milhares. Os sacerdotes da alegria e da tristeza prometiam-nos que poderíamos aspirar à glória se fossemos como eles. E por isso, sem o saber dizer,  jogávamos sem parar, mimetizando gestos, ouvindo imaginárias ovações no descampado deserto ou na cama, à noite antes de dormir.

Chegavam-nos os seus feitos pelos relatos de domingo à tarde ou nos poucos jogos televisionados a preto e branco, narrando sucessões de gestos mágicos, movimentos de bailado, saltos de gato, arranques de mustang perseguido em fuga pela pradaria, salvamentos in extremis que faziam disparar o coração e, enfim, o momento do grito desamparado, louco e suficientemente longo para gritarmos nós também, darmos saltos, talvez até chorarmos, enquanto a tarde lá fora se interrogava acerca do paradeiro de toda a gente.

Tiraram-me isso tudo. Disseram-me com crueldade “O futebol é um negócio de mafias e intrigas”. O jogo não é só o campo. Nem é quase campo. A máquina que o alimenta é feia, gerida por homens sem carácter, que não sabem o que é heroísmo, virtude, abnegação, desportivismo e mérito. Afinal o meu amor tinha sido entregue  a algo feio, a um tipo de coisa que os meus pais me ensinaram a evitar, um lago apodrecido no escuro da conspiração e da trafulhice, onde vermes se alimentam hoje dos jogos e da vontade de sonhar que aquelas crianças derramavam pelos longos dias da sua infância.      

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