Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Micropaisagem

Micropaisagem

10
Jul17

Resenha - Só uma noite, Markovitch - Ayelet Gundar-Goshen

 (imagem retirada de www.bertrand.pt)

 

Após as primeiras páginas deste livro percebe-se que a escritora coloca a fasquia bem alto.
A narrativa começa alguns anos antes da criação do Estado de Israel. Estamos numa aldeia de judeus perto de Telavive que nos é apresentada como uma mini Macondo. As personagens são poucas, mas todas com características de realismo mágico: uma mulher que cheira a laranja, o filho desta que cheira a pêssego, um homem com um bigode termostato do seu estado de espírito e um outro tão comum que ninguém repara nele. Obsessões e manias são levadas ao extremo, as temperaturas das casas são moduladas pelo tipo de relações entre as pessoas que nelas vivem e há até morangueiros que decidem frutificar porque querem continuar a ouvir as histórias que o agricultor lhes conta.
Bem imaginado, o livro não se esgota nesse tipo de literatura. Há passagens literárias e figuras de estilo muito, mas mesmo muito, bem trabalhadas. As personagens são heróicas, bem humoradas e cheias de falhas de personalidade. 
O inicio é, portanto, muito bom.
O problema surge a três quartos da história, como é habitual. Esta é a altura da ficção em que os bons livros costumam fraquejar e em que deixam de poder ser tomados por algo superior. De facto, a narrativa, que segue cinco personagens principais, acaba por não aguentar e, às tantas, a autora já não sabe bem o que dizer ou como chegar à conclusão da história. As boas metáforas foram ficando pelo caminho, cada vez mais esparsas e de menor qualidade, a linguagem torna-se menos rica, as personagens correm o risco de se tornar monótonas e a solução é mandá-las para fora da aldeia um bocado à pressão para que possam aprender, modificar a sua maneira de ser e, agora melhores, resolver os problemas entre si. Infelizmente, nada disto cola e dir-se-ia que Gundar-Goshen as mandou para fora para poder pensar um bocado ou para fazer passar tempo ou páginas. Uma atitude quase desesperada muito comum que pode ou não ser bem disfarçada. Neste caso, apesar de tudo, uma pessoa fecha os olhos de bom grado, tendo em conta o que a prosa da autora já lhe deu anteriormente.  
Passada essa parte, quando todos se reúnem outra vez, a história volta a desenvolver-se a bom ritmo, sempre bem escrita, mas agora só assim, ‘bem’, e não ‘excelente' como nas primeiras páginas
O fim é demasiado abrupto, aspeto que costuma caraterizar primeiras obras.
É uma boa leitura para leitores que gostem de personagens fortes ou de realismo mágico com sabor a Mar Mediterrâneo. 

1 comentário

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D