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Micropaisagem

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03
Jul17

Resenha - 1Q84 (vol 1) - Haruki Murakami

(imagem retirada de www.bertrand.pt)

 

De Murakami já tinha lido 5 livros: Sputnik, Meu Amor; Em Busca do Carneiro Selvagem; Underground;  Auto-Retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo;Kafka à Beira-Mar, tendo relido este último com uma década de intervalo.

Este primeiro volume de três segue os protagonistas, Aomame, uma instrutora de fitness, que nas horas livres leva a cabo execuções de homens que maltratam mulheres, e Tengo, um professor de matemática que ambiciona ser escritor de ficção. Ambos têm cerca de 30 anos de idade, são solteiros e não estão envolvidos em qualquer relação emocional séria. A narrativa alterna entre uma história e outra, que nunca se cruzam.

A história de Aomame passa-se num mundo com diferenças em relação ao mundo real que ela conhece (duas luas no céu, uniformes diferentes de policias, uma base lunar internacional, etc) de que ela se apercebe com espanto e que aos poucos vai aceitando.

A história de Tengo gira à volta do trabalho de reescrita de um romance de uma rapariga de 17 anos chamada Fukaeri. Esta, com um excêntrico modo de estar, vai levá-lo a conhecer e a envolver-se na história de uma seita religiosa que vive isolada nas montanhas.

Se a ligação entre as duas personagens principais surge no livro já num momento bastante adiantado, e no momento certo, refira-se, o par enferma de murakamite: jovens adultos sem laços emocionais, sem família e para quem o sexo, com obsessões muito definidas, é uma necessidade que se satisfaz com amantes. Têm perfis discretos, de certa forma inadaptados, e são na aparência submissos. Não tendo lido o segundo volume, poderei apostar que agora, finalmente juntos, irão explorar um mundo mágico ou sobrenatural.

De resto, Murakami domina o ritmo e a narrativa com maestria, cansando um pouco nas auto-reflexões demasiado longas e repisadas vez após vez, nas referências constantes a marcas e nas descrições pormenorizadas das indumentárias. Consegue colocar o leitor nos ambientes que propõe, apresentando a história e a sociedade japonesa de um modo que mantém a curiosidade ativa. Joga com a cadência dos factos e mantém o suspense durante o tempo necessário. Um bom exemplo é a forma como o Povo Pequeno vai surgindo gradualmente ao longo do livro. Se ao início é só um elemento do romance de Fukaeri, no final já está a atuar na história de Aomame de um modo não explicado, só descrito e bastante, no bom sentido, misterioso.

Não obstante, é um livro demasiado longo, o que é característico de autores consagrados com grandes legiões de fãs. "Vendas asseguradas" é igual a, senão a liberdade criativa, ao à vontade para descurar a eficácia aqui e ali. Como exemplo, toda a parte inicial de Aomame.

É difícil saber ainda se irei ler o segundo volume. Sabendo que o primeiro tomo é uma introdução de 560 páginas que poderia ter sido escrita em 100 ou 150, as 430 do seguinte não auguram nada de especial. Por outro lado, das restantes obras de ficção do autor lidas, gostei sempre mais dessa altura em que os universos alternativos surgem, porque é para mim essa a força maior do escritor japonês. Lembro-me especialmente com agrado da estadia do protagonista de Kafka à Beira-Mar na cabana na montanha, do seu encontro na floresta com dois soldados que julgam que a II Guerra Mundial ainda está a decorrer e da aldeia que encontra no fim desse caminho.

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