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Micropaisagem

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18
Jun17

Pedrógão Grande - exceção entre milagres anuais

Uma das consequências de ter deixado de ver televisão, abandonado as redes sociais e não ter smartphone é, de vez em quando, ser surpreendido pelas capas dos jornais.


A senhora brasileira tinha acabado de abrir o café. O cabelo ainda molhado e o vigor com que esfregava cada um dos tampos das mesas pareceram-me sinalizar, não sei bem porquê, contrariedade em ali estar às 8 da manhã de domingo. Confirmei-o quando, único cliente no estabelecimento, pedi um abatanado. Ao perguntar quanto era, ela respondeu «50 cêntimos» num tom que parecia um empurrão a avisar-me para me afastar.


Havia dois jornais de hoje em cima de uma das mesas. Um deles o obrigatório Correio da Manhã e o outro o Record. (se é Record, o dono é do Sporting, se é A Bola, é do Benfica). A primeira página do Correio da Manhã chamou-me a atenção. «20 Mortos» em letras garrafais sobre uma imagem de um carro ardido. Soltei um inadvertido «O quê, 20 mortos?»


A senhora começou então a falar. Sabia muito sobre aquele assunto mortal: 500 bombeiros,400 carros, pessoas presas em viaturas a arder, trovoada, vento muito seco e uma explicação detalhada e muito criativa de como a folha do eucalipto, quando arde, voa e vai plantar o fogo «para lá, bem lá prá frente». Enquanto mo explicava, diria agora entusiasmada, ligou a televisão para que eu comprovasse o que ela estava a dizer. Os mortos já eram 40 e o presidente da república comentava a situação. Ao ouvir a jornalista dizer que estava comprovado que o fogo tinha nascido por causas naturais, o ânimo da senhora voltou a esmorecer, soltando um «ah, então não foi criminoso...»


Enquanto eu digeria a informação, chegou uma cliente, ao que parecia habitual, com quem a empregada do café, talvez dona,  comentou brevemente o incêndio e suas vitimas. Logo depois, a conversa mudou para a dificuldade em dormir nessa noite, acrescentando a cliente que os seus dois cães, «coitadinhos», não tinham dormido quase nada, sempre de língua de fora , determinando assim que as vitimas do incêndio de Pedrogão Grande, cujo número de casos mortais continua a aumentar conforme o dia vai avançando, já não existiam.


Ao sair, pensava naquelas pessoas com os caminhos cortados pelo fogo, presas numa armadilha de que nunca poderiam desconfiar ao acordarem nesse dia. Será que haveria mais para saber? Será que todas as vitimas seriam as da estrada ou teria havido também casas ardidas? Abandonei a minha curiosidade ainda antes de atravessar a estrada.


Aconteceu ontem. Já poderia ter acontecido muitas mais vezes. Esta tragédia só é tão espantosa porque até agora os milagres que os bombeiros nos têm proporcionado ano após ano nos parecem a ordem natural das coisas. Mas não são nem nunca deveriam ser tomados como tal.

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