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Micropaisagem

Micropaisagem

19
Out17

Olhos vermelhos

Passo pelas caixas de fruta expostas no passeio. O dono da mercearia sai da carrinha com uma embalagem de plástico cheia de alfaces. Cumprimentamo-nos quando nos cruzamos. É um homem um pouco mais baixo do que eu e que deve, talvez, estar a meio dos 50. É um pouco cheio, tem o cabelo e barba grisalhos. É uma pessoa simpática e cordial, mas hoje há algo que trava a sua voz como uma sombra.

Lembro-me de que tenho de levar leite, de modo que volto atrás e entro na loja, onde é tudo muito mais caro do que nos supermercados a que costumo ir. O facto de ficar na minha rua, a meio-minuto de casa, conta mais em quase-emergências como esta.

Pego em dois pacotes e dirijo-me para a caixa. A dona, que estava a arrumar umas prateleiras, aparece sem o seu habitual passo decidido. Tem uns olhos vermelhos que, somando ao que detetei na atitude do marido, me faz perceber que aconteceu alguma coisa.

Chegado a casa, comento a tristeza e a minha mulher explica-me que a aldeia deles tinha ardido. Tinham morrido pessoas que eles conheciam e houve familiares e amigos que ficaram sem nada.

Vou à janela da cozinha para olhar a mercearia lá em baixo. A seguir olho em volta, para os prédios, para o absoluto urbano em que passo os meus dias. Se é certo que estas casas e prédios nunca serão ameaçados por incêndios mortais como os deste verão e outono, de certa forma estes chegaram cá e arderão para sempre na memória dos que perderam conhecidos, casas de família e que viram os locais onde nasceram serem devastados e não há nenhuma pirueta de estilo possível para terminar em grande um post sobre isto.

 

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