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Micropaisagem

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26
Jul17

O Voo Celestial da Baleia

De cada vez que vou à praia, dedico os primeiros minutos a olhar para o mar alto na esperança de ver uma baleia. É um desejo infantil, muito antigo, de detetar um repuxo, uma grande barbatana a descer e desaparecer nas águas ou, o que mais gostava, de ver o salto de uma baleia recortado contra o céu lá ao longe.

Como fumo, vejo o céu todas as noites. Em todas essas vezes que vou à janela, procuro duas coisas: um ovni e Jesus voltando em glória como um relâmpago que parte do oriente e brilha até no ocidente, com diz no evangelho de Mateus. Um ou outro, ou os dois em conjunto, são também fantasias de infância que já não espero realmente ver mas que que se tornaram um hábito mental.

Estou então há 30 anos à espera das baleias e dos fenómenos celestes. Não tenho dúvida de que se um deles acontecesse sob o meu olhar, seria muito especial. Talvez dissesse: “Eu bem sabia. Eu sabia!”. Haveria, talvez, uma validação da minha identidade que só consigo intuir ao de leve e não sei explicar.

Mas a verdade, o que existe, é que a minha espera e atenção nunca tiveram resultados. O meu esforço de observação foi espúrio. Querer muito não implica nada quando é impossível fazer aparecer com o meu esforço um cetáceo, forçar a concretização de uma profecia bíblica ou a confirmação dos sonhos do miúdo leitor de ficção científica.

O segredo é outro.

Há 13 anos atrás estava na estação do Rossio, no início de um dia de semana normal de um período difícil da minha vida, talvez mesmo o mais difícil. Estava parado a conversar com alguém cá em cima, no largo dos táxis, quando ela parou junto de mim e me disse “Olá!”. Já a conhecia desde a adolescência. Tínhamos falado um par de vezes porque eu era amigo do seu namorado de então.

O sorriso que acompanhou esse “Olá” mudou a minha vida. Eu soube, ela soube também, numa surpresa do universo, que iriamos ficar juntos. Ao fim de 12 anos de vida em comum, ainda não sei explicar porque é que soubemos ou como é que é possível a felicidade e o amor como constante na nossa relação.

Uma das nossas crianças vem ter comigo. Está entusiasmada. O seu nível de alegria é uma baleia a saltar no oceano, um nave multicolorida a surgir entre as estrelas da noite e Jesus voltando em glória.

Foi ela que, com aquele “olá”, me deu um mar e um céu em que vejo o que me surpreende e se traduz em maravilha.  Continuarei à procura dos sinais quando for à praia ou durante um cigarro noturno, é certo, mas já aprendi que o melhor acontece quando não o espero. Basta ter um coração agradecido.  

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