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Micropaisagem

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28
Jun17

O racismo na educação em Portugal

A minha reação de estranheza a este artigo fez com que fosse perguntar a algumas pessoas, brancas, se achavam que os portugueses eram racistas. Todos me responderam que sim, o que me deixou ainda mais baralhado, talvez por eu não ser racista e tenda a ver indivíduos em vez de ver cor de pele.

Moro num local bastante multicultural, digamos assim, e a vantagem de andar de comboio e autocarro todos os dias facilita a observação do comportamento das pessoas. No último ano só vi duas manifestações públicas de racismo. Ambas na sequência de discussões entre passageiros, o argumento de raça surgiu já quando as portas se estavam a fechar e os intervenientes já não podiam continuar a discutir.

Talvez isso confirme que existe racismo nas mentes de muitos dos meus concidadãos. Sim, se pensar bem, se pensar num número suficiente de pessoas, posso dizer isso: as pessoas tendem para o racismo em termos individuais.

No entanto, o artigo, segundo julgo perceber, envolve  a palavra num contexto político, via vertente educação. O termo racismo passa então a ser "A sociedade portuguesa discrimina as pessoas de pele negra porque as chumba e envia mais para os cursos profissionais".

Ou seja, a responsabilidade pessoal pelo percurso académico deixa de existir e passa a ser do Estado. Englobado agora num grupo discriminado, o individuo já não existe, com a sua história, ambiente familiar e económico, sendo substituído pela pertença a um coletivo. Não interessa qual a sua medida de esforço pessoal e o dos pais na progressão escolar, uma vez que são os professores e o sistema os responsáveis pelo seu insucesso.

As questões de raça não têm um exclusivo desta abordagem. Todos os casos que envolvam minorias ou direitos têm tendência para ser afetados.

Há uma parte do texto que ressoou de um modo particular em mim.

Podemos achar, claro, que é por conformismo, desistência, falta de esforço. Mas muitos dos que nem sequer tentam foram atingidos pelo racismo institucional. Porque não é uma questão de chegar ao 10.º ano e desistir - a vontade foi cortada antes. A falta de ambição, a ausência de amor-próprio, são construídas. Numa fase de construção de carácter, a criança sente que não acreditam nela, que não se puxa por ela. Convence-se de que não merece. Interioriza uma imagem que não é boa."

Quando estudava, nunca pensei que alguma vez poderia ir para a universidade. Era algo adquirido por quase todos os estudantes. Isto só não acontecia com os marrões e para os com dinheiro, que poderiam frequentar as recém criadas universidades privadas. O ambiente era esse e consigo perceber ambições pessoais cortadas bastante cedo. Só não entendo é como é que essa responsabilidade, em vez ser da família, tem de ser da sociedade. Esta minha questão parece ser pertinente quando a seguir se lê, num outro testemunho de alguém que é negra e estudante universitária:

"Fiz o ensino básico na Damaia, numa escola complicada. Depois mudámo-nos para o Barreiro. Quando entrei no sexto ano só havia outra rapariga negra na turma. Mas os meus pais tinham um controlo muito grande sobre o meu percurso, puxavam muito por mim e tinham muita atenção a pequenas agressões que foram acontecendo. E acho que acabei por ter sorte com os professores." 

Tornar alguém vítima de um modo institucional, isto é, os negros que não conseguem tirar cursos universitários porque não os deixam, não será, certamente, o caminho ideal. Isso só faria sentido se a maioria dos desistentes nas mesmas circunstâncias não continuassem a ser brancos. Se as crianças negras são tratadas pior desde o infantário, duvido. Mas aceito que assim possa ser por falta de informação minha. Sei é que a família é fundamental. E aqui, sejamos claros, poderá estar a chave fundamental da questão. A educação familiar que tem delegado na educação do Estado a transmissão de valores.

Ensinar alguém a justificar-se como vitima sistémica não é um bom caminho. Antes, acho que ensinar a trabalhar para perseguir um ideal de futuro, que como para quase toda a gente nunca está assegurado, e ensinar em ir mais além na escola se se encontrar professores racistas, dotar o individuo, essa personalidade que não tem raça, mas um nome e características únicas, das ferramentas para acreditar em si.

 

 

   

 

 

 

 

 

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