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Micropaisagem

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21
Jun17

Life - Filme

 

Nos bombeiros o bailarico avança com um ensemble de top hits de música ligeira. O Apita o Comboio acabou de dar lugar a um tema que não reconheço. Talvez por ser meia-noite, talvez por estar tanto calor no quarto, talvez por irritação, durante esta maratona pimba só consigo reparar na linha de baixo, há cerca de 20 minutos a servir todas canções com a mesma cadência e notas. Não sendo certamente caso de poder sofrer uma crise pessoal em que seja obrigado a reavaliar tudo o que sei sobre o mundo e sobre mim, a constatação da ubiquidade da performance do baixista faz-me refletir.
De um modo muito primordial, quase infantil, nunca consegui aceitar bem a ideia de repetição de soluções na arte em geral. Claro que temas de Quim Barreiros ou Toy poderão nem sequer ambicionar o estatuto, como acho que não ambicionam. Quem diz música ligeira, diz pop da Rádio Comercial, livros de amor de Nora Roberts ou mais um Velocidade Furiosa.
Existe uma indústria que pega em modelos e os repete até à exaustão e existe público para aceitar com alegria o mesmo prato requentado vez após vez. Afinal de contas, é só entretenimento. As pessoas querem distração com algo que à partida já sabem que gostam.
O filme Life é assim: uma espécie de lasanha do Lidl cozinhada no microndas. Sabemos que aquilo não é uma verdadeira lasanha, mas aceitamos ser enganados por aquele molho, queijo e carne porque gostamos de lasanha. Só que desta vez, fui enganado, talvez por mim próprio, porque pensava mesmo que aquilo era fresco.
Aconteceu-me o que se costuma referir como ir ao engano. Do mesmo modo que não leio José Rodrigues dos Santos, porque sei do que se trata e porque o homem escreve com o sovaco, não deveria ter perdido aquele tempo a assistir a um filme que se veio a revelar uma desilusão ultra congelada.
A trama inicial promete. Pela primeira vez na História, um grupo de cientistas na Estação Espacial Internacional faz uma experiência com células alienígenas descobertas em Marte. Ao conseguirem ativá-las, a algazarra mortal, e sobretudo sangrenta, começa.
Muito bem filmado, com excelentes e discretos efeitos espaciais, com bons atores, Life começa a escapar-nos entre os dedos quando começamos a rever todas as soluções habituais em filmes com gente fechada dentro de naves de que não consegue sair: o bicho desenvolve-se rapidamente e revela-se, não só um predador letal, mas também possuidor de uma inteligência e perspicácia infalíveis; os astronautas vão morrendo um a um, espalhados pelos diversos módulos da estação; há um passeio espacial que corre mal, naturalmente; uma parte da nave desintegra-se; nos momentos exatos, os protagonistas perdem a sua lucidez e cometem erros por causa da emoção com consequências trágicas; há cápsulas de salvamento ativadas para tentar resolver a situação; há pessoas dentro de cápsulas de salvamento cuja última participação são gritos de desespero enquanto são atiradas para o espaço profundo; a última cena é a preparação para um potencial segundo filme.
Quase que se tem pena do argumentista, fechado, também ele, dentro daquela nave com um monstro que é aquela história. Vendo bem, tentando ser justo, é um espaço demasiado pequeno e apertado para que alguém possa fazer o que quer que seja de inovador. Os tipos estão sozinhos até chegar uma Mir, supostamente para os ajudar. Mas, mesmo aí, daí a 5 minutos já a nave russa está aos pedaços na órbita terrestre e destruiu no caminho um monte de material da estação internacional.
Gostando dos trabalhos anteriores de Hiroyuki Sanada e Jake Gyllenhaal, os seus personagens são de uma espessura mínima. Mas a verdade é que não têm tempo para mostrar mais. Estão preocupados, a lutar pela vida, como, deixa lá ver, Ripley, em Alien. No fundo, é o bicho. Sempre o bicho.

 

 

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