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Micropaisagem

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20
Jun17

Judite de Sousa e os Mestres de Cerimónias

Vejo Judite de Sousa com cadáver em fundo e empoleirada num reboque, encostada a um carro incenerado. Não consigo deixar de pensar que, além de a um grande mau gosto, as duas imagens devem quase tudo à cultura da selfie.

Como não entender a senhora, se hoje em dia se tornou normal querer aparecer? Onde antes existiam pedidos de autógrafos,  fotografias normais de alguém aos pés de uma catedral gigante, bilhetes de concerto emoldurados no quarto e frases do estilo “Paulo 17/04/1985” rasuradas com canivete numa árvore, existe hoje a ânsia das fotografias com celebridades, caras enormes à frente de monumentos,  grupos de sorrisos com palco de festival musical lá atrás ou paisagens desfiguradas por alguém a querer dizer “estive aqui”.

Não sei bem o que achar de tudo isto. Sei só que não pratico e que se o fizesse me acharia tonto. Ocorre-me a palavra “Eu” repetida muitas vezes. Os lugares, momentos e pessoas estão hoje submetidos, mediados pelas identidade sélfica, que é, sem dúvida, mesmo muito importante. A vida à volta, aquilo que acontece para além do self, só vale a pena ficar registado, parece, desde que participe e fique registado como ator principal. A memória silenciosa do que se passou ou de onde se esteve não basta. É necessário ser o Mestre de Cerimónias.

Judite de Sousa usou a linguagem social, a irrefletida exposição e os gestos narcísicos banais de hoje, dos nossos dias.

Hesito entre o que é mais intrigante: aquele trabalho jornalístico ou desconfiar que muito boa gente tiraria selfies similares se lá estivesse naquele momento.   

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