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Micropaisagem

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05
Set17

David C.

Ontem vi o David C. na estação de comboios a distribuir publicidade ao pé das escadas rolantes. Estava no meu caminho e evitei-o, não fosse ele reconhecer-me.

O David era amigo de amigos meus de juventude. Deve estar a meio dos 40. Falei em algumas ocasiões com ele e até lhe dei uma vez boleia há uns anos.

Os amigos do David gozavam um bocadinho com ele, o que se entendia. Tem de certeza um ligeiro traço, ou de autismo, ou de atraso, nunca percebi. Parecia ser tão inteligente a raciocinar quanto inepto para manter uma conversa simples. A sua incompetência social é flagrante. 

Ontem vi o David C. na estação de comboios. A sua grande cabeça. O cabelo grande e espetado. Os óculos de lentes profundas. A cara meio gordurosa, marcada. Feio. Olhos demasiado afastados. A sua figura causa repulsa. Ao andar ou correr parece um pouco descoordenado. E lembro-me dele no meio do público na primeira vez que toquei ao vivo com alguns desses amigos comuns. Batia palmas com demasiada força, fora do ritmo, em esforço.

Ontem vi o David C. e fiquei a pensar nele durante estas 24 horas. Com pena. Com tristeza. Nunca terá filhos ou uma mulher que o ame. Provavelmente não tem um amigo que o procure porque precisa da sua companhia. Com dor, tentei imaginar como terá sido quando percebeu que não era como os outros meninos, que não corria tão bem ou que ninguém o desafiava para algumas brincadeiras. Quando se terá apercebido do riso que causava? Não consigo imaginar uma vida assim.

Ontem vi o David e lembrei-me das histórias que ouvi dele. É um tipo com uma coragem do caralho, que tem um curso superior de direito, que nunca vira a cara à luta e que já deve ter tido muitos empregos. Uma vez vi-o lá na empresa, à entrada junto à rececionista, a preencher formulários para ser vendedor. Dessa vez também não lhe falei.

Ontem, na vinda do emprego naquela empresa onde estou há mais de 10 anos, vi o David C. na estação de comboios e depois apanhei o autocarro para casa, para junto da minha família. O não ter-lhe dito olá...não consigo deixar de pensar que foi uma das coisas mais vergonhosas que já fiz na vida. Porquê é que digo isto? Porque estou a sentir o que estou a sentir, foda-se.

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