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Micropaisagem

Micropaisagem

17
Out17

Filiação

E continuo com eles a mandar, políticos de quem não é fácil dizer bem quando chegam as dificuldades fora do jogo parlamentar/partidário. Ou seja, quando factos tramados e a vida, ou morte, dos cidadãos se impõe na agenda.

Assisto à performance de um secretário de estado a dizer que as pessoas têm de ser mais proactivas (não esperar pelos bombeiros para combater os fogos) quando houve mortes de gente por causa dessa iniciativa em defender das chamas o que era seu.

Ouiço uma ministra dizer que se fosse demitida, ao menos, iria ter as férias que não pôde gozar devido aos incêndios. Isto, quando o seu primeiro-ministro estava de férias enquanto acontecia Pedrogão Grande.

Registo, quem me dera que incrédulo, as palavras de um primeiro-ministro a dizer ao país que nos devemos habituar a estes cenários e a assegurar-nos que este tipo de calamidades irá acontecer mais vezes.

Fico desanimado quando é evidente que não há homens e mulheres de valor a comandar os destinos do meu país. Não só Costa, mas também Passos, com as reformas que não se atreveu a fazer. E antes dele Sócrates, o criminoso, Santana, o medíocre, Barroso, o desertor e Guterres, o cobarde. Mais para trás, não tenho nada para dizer. Foi com Guterres e o seu pântano que comecei a acompanhar.

A parte positiva de isto tudo é ter-me trazido a necessidade de participar na política.

Filiei-me hoje, pela primeira vez, num partido. É uma sensação muito curiosa.

16
Out17

Digital junkies

Estou na fila do autocarro, imerso na leitura da descrição dos primeiros dias de um anarquista russo na Londres do inicio do século passado. À minha frente, um homem nos seus quarenta liga o altifalante do seu smartphone e ficamos todos a ouvir uma longa discussão em francês de um video do youtube. Atrás de mim, há já uns minutos que se ouvem os sons de um jogo de guerra vindos de um outro telemóvel que uma mãe teve a amabilidade de colocar nas mãos do filho, que certamente não terá ainda 10 anos.

Entalada, a narrativa dos planos de assassinato do conde Orlov por parte de Feliks, o anarquista, vai sendo interrompida por palavras que sobressaem em momentos gritados à frente – merdeux e ça ne marche pas – e explosões, rajadas de metralhadora e Go, go, go atrás de mim.

Fecho o livro, incapaz de continuar a leitura.

Antes existiam os rádios a pilhas com que alguns homens andavam por aí a ouvir emissões AM. Pode ser que estes comportamentos sejam a evolução lógica natural/digital. Penso ainda naquele tipo de toxicodependente que se injeta em público, mas isso talvez seja ir um pouco longe demais. Os toxicodependentes parecem ter um pouco mais de decoro.

13
Set17

O falhanço e a cobardia

A mais pequena aparece na sala de galochas com brilhantes, analisando cada passo como se estivesse a preparar uma expedição. A outra escreve o seu nome nos cadernos e materiais escolares com que se prepara para atacar a 2ª classe.

Hoje de manhã, eu e a minha mulher dividimos as reuniões com a professora da primária e com a educadora de infância. É o último dia de férias das miúdas. Estamos a meio da tarde. Respira-se um ar de antecipação de grandes coisas. As meninas estão mais calmas do que à partida eu esperava. Estão, dir-se-ia, concentradas.

Há dois dias fiz mais de 700 quilómetros. A mais velha entrou no curso que desejava em Braga. Queria-o tanto que não se candidatou a mais nenhum. Se não tivesse nota, arranjava um emprego e para o ano tentava outra vez. Aí, já colocaria mais opções. 

Enquanto visitávamos o seu quarto na residência de estudantes, eu pensava no orgulho que sinto por ela ter a coragem que tem. Sei que tem medo e dúvidas acerca de conseguir, mas, de algum modo, ela sabe que a vida de adulta é diferente da que até agora teve e que chegou a altura de ir buscar e lutar sozinha pelo que quer, nem que para isso se tenha de estabelecer numa cidade em que não conhece absolutamente ninguém. Referiu-me colegas da secundária que os pais não deixaram concorrer para fora de Lisboa, alguns por não se quererem separar dos filhos e outros porque não confiam neles. Quanto a mim, como não confiar em alguém que é capaz de demonstrar desta forma o que pensa: antes o falhanço do que a cobardia.

Penso nisto enquanto vou para a marquise fumar. Começo depois a imaginar o desenvolvimento de um  personagem do romance que estou a escrever quando vejo uma águia de asa redonda aos círculos mesmo à minha frente. Chamo de imediato a minha mulher, que interrompe o seu trabalho de ilustração para aparecer com os binóculos. Enquanto ela comenta que já a tinha visto por aqui, eu penso no sentido que estas quatro mulheres trazem à minha vida.

Agradecido e de coração sempre apertado.

 

 

 

 

 

 

12
Set17

Uma nova trela

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- Quando é que se tornou normal o lançamento de uma nova versão de um produto americano ser seguido em direto por jornais portugueses?

- A partir do momento em que os jornalistas tugas não são capazes de viver sem esse produto.

- Mas aquilo não é publicidade grátis para um produto que está no mercado com centenas de concorrentes?

- É. Mas não importa.

- Mas como "não Importa"? Não pode ser!

- Tanto pode que é. Faz parte da ideia de que a questão tecnologia está acima desse tipo de problemática. Tem um outro estatuto porque é consumida por milhões, percebes? A deontologia vai á casa de banho e perde-se por lá quando os jornalistas estão envolvidos emocionalmente ou quando há muitas pessoas a querer uma coisa.

- E ainda por cima tratando-se do iphone.

- A Apple é uma espécie de religião para os jornalistas, acho eu.

- Ou então paga bem.

- (riso) Não! Os jornalistas não são assim tão inteligentes. A esta altura são putos aos saltinhos e a fazer contas à vida. Só sabem que têm de comprar aquela nova trela.

- Como o resto das pessoas...

- Isso! Como o resto das pessoas.

 

 

 

05
Set17

David C.

Ontem vi o David C. na estação de comboios a distribuir publicidade ao pé das escadas rolantes. Estava no meu caminho e evitei-o, não fosse ele reconhecer-me.

O David era amigo de amigos meus de juventude. Deve estar a meio dos 40. Falei em algumas ocasiões com ele e até lhe dei uma vez boleia há uns anos.

Os amigos do David gozavam um bocadinho com ele, o que se entendia. Tem de certeza um ligeiro traço, ou de autismo, ou de atraso, nunca percebi. Parecia ser tão inteligente a raciocinar quanto inepto para manter uma conversa simples. A sua incompetência social é flagrante. 

Ontem vi o David C. na estação de comboios. A sua grande cabeça. O cabelo grande e espetado. Os óculos de lentes profundas. A cara meio gordurosa, marcada. Feio. Olhos demasiado afastados. A sua figura causa repulsa. Ao andar ou correr parece um pouco descoordenado. E lembro-me dele no meio do público na primeira vez que toquei ao vivo com alguns desses amigos comuns. Batia palmas com demasiada força, fora do ritmo, em esforço.

Ontem vi o David C. e fiquei a pensar nele durante estas 24 horas. Com pena. Com tristeza. Nunca terá filhos ou uma mulher que o ame. Provavelmente não tem um amigo que o procure porque precisa da sua companhia. Com dor, tentei imaginar como terá sido quando percebeu que não era como os outros meninos, que não corria tão bem ou que ninguém o desafiava para algumas brincadeiras. Quando se terá apercebido do riso que causava? Não consigo imaginar uma vida assim.

Ontem vi o David e lembrei-me das histórias que ouvi dele. É um tipo com uma coragem do caralho, que tem um curso superior de direito, que nunca vira a cara à luta e que já deve ter tido muitos empregos. Uma vez vi-o lá na empresa, à entrada junto à rececionista, a preencher formulários para ser vendedor. Dessa vez também não lhe falei.

Ontem, na vinda do emprego naquela empresa onde estou há mais de 10 anos, vi o David C. na estação de comboios e depois apanhei o autocarro para casa, para junto da minha família. O não ter-lhe dito olá...não consigo deixar de pensar que foi uma das coisas mais vergonhosas que já fiz na vida. Porquê é que digo isto? Porque estou a sentir o que estou a sentir, foda-se.

03
Set17

Esquerda, volver sempre!

Em dois dias, o fortalecimento da razão de nunca mais votar na extrema esquerda.

Numa entrevista ao DN conduzida por Fernanda Câncio, sim por Fernanda Câncio, esse exemplo de imparcialidade intelectual e política mais conhecida por ter sido a namorada ingénua de Sócrates, Mariana Mortágua diz que não vê nada de mal na recomendação da CIG acerca dos livros de exercícios da Porto Editora. "Para que crianças de quatro anos não fossem expostas a um material que achamos que não cumpre os critérios. Se aquele material fosse racista acho que não havia esta polémica. Incomoda-me quando se usa a questão da liberdade de expressão e da liberdade de sociedade para tentar manter opressões. "Porque eu tenho liberdade de ser sexista" - não, não, desculpa, não tens". Mais à frente defende a liberdade individual como uma espécie de principio, mas não dá para acreditar. Quer dizer, dá para acreditar que ela tem um discuros tonto que se contradiz à força toda. Na minha opinião, o BE no governo seria um multiplicar de proibições/recomendações contra materiais que eles acham que não cumprem os critérios alargados a tudo o que fosse uma chatice para os seus sonhos húmidos de engenharia social.

 

Já hoje, o camarada Jerónimo disse, na festa do Avante, que o "imperialismo norte-americano" é o "responsável por uma criminosa escalada de confrontação que, a não ser travada, conduzirá a Humanidade à catástrofe", referindo-se à questão nuclear na Coreia do Norte. Disse ainda que "A URSS e o sistema socialista marcaram as conquistas e avanços históricos conquistados durante o século XX pelos trabalhadores e os povos na sua luta de emancipação social e nacional. O seu desaparecimento representou um imenso recuo para as forças da paz e do progresso social, nos direitos dos trabalhadores e na soberania dos povos." Se a segunda declaração pode ser tomada só como um desvairo, uma espécie de uivo enlutado toldado pela melancolia, já a primeira não engana na sua capacidade socialista clássica de redefinir a realidade, ou eliminar liberdades, desde que isso sirva o que eles chamam de Revolução. Não me iludo. O PCP no governo mandaria matar milhares. Sim, estes mentecaptos prenderiam e matariam milhares.

 

Penso ainda nos artistas que ao atuarem na festa do Avante apoiam as ideias políticas que nele correm. António Zambujo, Rui Veloso, Gisela João, João Gil e Manuela Azevedo a assinarem por baixo deste tipo de discurso é uma ideia curiosa. Não fazia ideia de que para eles a Coreia do Norte e a URSS sejam exemplos de paraísos sociais.

 

Bom, talvez exagere. Talvez seja eu que preze demais a Liberdade. Talvez uma boa parte dos meus compatriotas tenha razão em não a ter assim em tão boa conta, pelo menos os vinte e tal por cento que votaram nestes dois partidos.

23
Ago17

Com a Gelatina Porto Editora, rumo à Palermice Total

A Comissão para a Igualdade de Género, por orientação do ministro-adjunto Eduardo Cabrita, recomendou.

O que estava em causa eram blocos de atividades para crianças de 4 anos de idade. Magnifico. A sério, é magnífico pensar que blocos de atividades para crianças e 4 anos possam ser perigosos. Como se não existissem pais para educar, para perceber quem são os filhos e orientá-los.

Uma deputada do PS, Ana Benavente, disse que a existência desses blocos era "inaceitável". Isto, a ideia de um bloco de atividades que é um sucesso comercial, ser "inaceitável", ou seja, que não se pode aceitar que esses materiais existam, é a terceira ideia mais grave.

A segunda ideia mais grave é que o governo se queira intrometer nas ideias que os pais de crianças de 4 anos queiram passar à prole, dizendo que há algumas que são, basicamente, proibidas. Isto é, o pai ou mãe é substituído pelo Estado no campo das ideias com que as crianças são educadas em casa.

A ideia mais grave de todas é, sem dúvida, a aceitação da recomendação por parte da Porto Editora, que irá retirar os livros de circulação. Quando a liberdade de comércio é auto-cerceada, estamos bem lixados, principalmente com livros.

Ganharam, por ordem, a vontade de ditadura, a ideologia como educadora e a burrice de uma empresa gigante sem espinha dorsal.

Com esta amostra, os próximos anos prometem ser uma magnifica sequência de palermices destes pequenos ditadores que nem sequer sabem que estão a brincar com o fogo.

Que maravilha, essa vontade tão antiga de ditar aos outros o que devem dizer, pensar e escrever!

 

04
Ago17

Os Baldaias desta vida

O espanto no artigo de Paulo Baldaia é um pouco incómodo. Aí está alguém que assina uma coluna de opinião, e que costuma partilhar também na televisão os seus pontos de vista, a criticar a leviandande, rapidez e falta de preparação das opinões alheias. Podia ter piada, não fosse um suspiro de tristeza e de desânimo pela evidência da fraqueza, senão dorsal, pelo menos intelectual. De alguma forma na sua mente, talvez por ser jornalista, talvez por ser diretor do Diário de Noticias, as suas opiniões estão num qualquer local diferente para melhor das do comentador do facebook. Não estão, como é óbvio, mas ele parece não percebê-lo.Quem sabe se nessa espécie de delirio, talvez ache que a sua opinião tem um valor intrínseco, uma auto-validação por ele ser jornalista e chefe de jornalistas.

Não é a primeira vez que PB me parece desnorteado, já incapaz, realmente incapaz, de se colocar de fora dos assuntos e olhar para eles de forma autocrítica. Bastaria referir como exemplo a caça ao clique com a palavra "viral" que o site do seu jornal apresenta todos os dias e de como isso entra em conflito com o que escreve acerca do algoritmo do facebook.

Para mim, o meu problema com os Paulos Baldaias desta vida é a característica de se pensarem acima, separados. A incapacidade de se perceberem e as figuras que fazem são não só extraordinárias como com um potencial de perigo para a liberdade alheia muito interessante.

 

 

 

   

26
Jul17

O Voo Celestial da Baleia

De cada vez que vou à praia, dedico os primeiros minutos a olhar para o mar alto na esperança de ver uma baleia. É um desejo infantil, muito antigo, de detetar um repuxo, uma grande barbatana a descer e desaparecer nas águas ou, o que mais gostava, de ver o salto de uma baleia recortado contra o céu lá ao longe.

Como fumo, vejo o céu todas as noites. Em todas essas vezes que vou à janela, procuro duas coisas: um ovni e Jesus voltando em glória como um relâmpago que parte do oriente e brilha até no ocidente, com diz no evangelho de Mateus. Um ou outro, ou os dois em conjunto, são também fantasias de infância que já não espero realmente ver mas que que se tornaram um hábito mental.

Estou então há 30 anos à espera das baleias e dos fenómenos celestes. Não tenho dúvida de que se um deles acontecesse sob o meu olhar, seria muito especial. Talvez dissesse: “Eu bem sabia. Eu sabia!”. Haveria, talvez, uma validação da minha identidade que só consigo intuir ao de leve e não sei explicar.

Mas a verdade, o que existe, é que a minha espera e atenção nunca tiveram resultados. O meu esforço de observação foi espúrio. Querer muito não implica nada quando é impossível fazer aparecer com o meu esforço um cetáceo, forçar a concretização de uma profecia bíblica ou a confirmação dos sonhos do miúdo leitor de ficção científica.

O segredo é outro.

Há 13 anos atrás estava na estação do Rossio, no início de um dia de semana normal de um período difícil da minha vida, talvez mesmo o mais difícil. Estava parado a conversar com alguém cá em cima, no largo dos táxis, quando ela parou junto de mim e me disse “Olá!”. Já a conhecia desde a adolescência. Tínhamos falado um par de vezes porque eu era amigo do seu namorado de então.

O sorriso que acompanhou esse “Olá” mudou a minha vida. Eu soube, ela soube também, numa surpresa do universo, que iriamos ficar juntos. Ao fim de 12 anos de vida em comum, ainda não sei explicar porque é que soubemos ou como é que é possível a felicidade e o amor como constante na nossa relação.

Uma das nossas crianças vem ter comigo. Está entusiasmada. O seu nível de alegria é uma baleia a saltar no oceano, um nave multicolorida a surgir entre as estrelas da noite e Jesus voltando em glória.

Foi ela que, com aquele “olá”, me deu um mar e um céu em que vejo o que me surpreende e se traduz em maravilha.  Continuarei à procura dos sinais quando for à praia ou durante um cigarro noturno, é certo, mas já aprendi que o melhor acontece quando não o espero. Basta ter um coração agradecido.  

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