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Micropaisagem

Micropaisagem

26
Out17

Sempre a descer, Lobo Antunes

António Lobo Antunes publicou 28 romances ao longo da sua carreira de 38 anos. O último, Até Que as Pedras Se Tornem Mais Leves Que a Água, chegou a semana passada às livrarias.

Mais uma vez não existe qualquer sinopse na contracapa, uma estratégia particular da Dom Quixote em relação à obra do escritor, vendido como tão excecional que basta o seu nome para, à confiança, se dar imediatamente os 20 euros do preço de capa. O cliente não precisa de saber o que está dentro do livro porque é-lhe oferecida a oportunidade de comprar António Lobo Antunes. Um cliente que faça do enredo e temática condições para adquirir um dos livros do prolifico escritor não o merece ler, não estando à altura do génio e cometendo uma insolência. «Como assim, enredo? Não seja vulgar.»

Todavia, o problema da Dom Quixote será outro: o seu autor é chato e cheira a bolor. Assim, terá de vender os seus livros como objetos de luxo, apelando à vaidade, neste caso intelectual, de quem compra livros com o selo Obra Completa (Edição ne varietur), um pouco como a Rolex fará com um palerma que compra um relógio de dois mil euros.

Infelizmente, e tendo o autor já tão poucos leitores, em que já quase ninguém parece ter paciência para aquilo, chegamos ao triste momento de questionar o talento do homem. O que se pode dizer de alguém que parece estar a escrever o mesmo livro desde há duas décadas para cá? Fascículo após fascículo, a coisa arrasta-se, cada vez mais lenta. Abre-se uma página ao calhas e lá estão os mesmos truques narrativos copy paste de sempre, o mesmo óbvio esforço em desorganizar uma história, afinal, línear – os parêntesis, as palavras fragmentadas de diálogos, os “e”, os “portanto”, os “de modo que”, os “sei lá”, os “lembro-me” ou as frase interrompidas a meio – e as personagens, da criada ao dono do Banco, a pensarem todas com as mesmas palavras.

Os livros de Lobo Antunes, quanto aos assuntos e personagens fazem-me lembrar os quadros de Francis Bacon. É, aliás, uma teoria minha de que Lobo Antunes escreve, na verdade, livros de terror. O ambiente claustrofóbico do vai à frente, vai atrás dentro da cabeça das personagens é sufocante. As alegrias são sempre passadas, o presente é sempre um parque infantil destruído pela corrupção da alma humana. E contra isto, nada haverá a dizer se se gostar dos quadros de Bacon ou se se procura uma alternativa Jornal de Letras a Stephen King. Gostos.

Reconhecendo que Lobo Antunes possa ser o grande cronista, e falo da ficção, do Portugal da segunda metade do século passado e inicio deste, acima de tudo tenho pena de que um óbvio amor pela literatura e uma capacidade tão boa com as palavras tenham sido gastos com uma imaginação e visão formal tão fracas. Ainda para mais, sofrendo o autor dessa dor de os leitores gostarem dele pelas razão que ele não quer: muita gente que gosta das crónicas na Visão, algo que ele sempre apresentou como trabalho menor, e detesta a sua ficção (a palavra é essa mesmo, detestar).

Uma última nota para mais uma capa desastrosa da Dom Quixote, e que parece uma homenagem ao filme Avatar, incapaz, no entanto, de bater a do fascículo do ano passado, uma das mais repelentes de que me lembro na sua desfigurada representação de Lídia Jorge.

20
Out17

Criação

Leio uma entrevista de Sara Tavares à hora de almoço e fico com desejo de estar em casa a melhorar aquela música em que ando a trabalhar. A seguir, leio uma outra de Jonathan Franzen e desejo estar em casa a avançar com o romance, que vai já com mais de 40 mil palavras e que estou a escrever há meses.

Noto as vontades e fico a pensar sobre elas. De onde terão vindo? Porque são tão primárias em mim?

Uma outra ideia surge, agregando-se: o desenho que, tal como a escrita ou a música, me alimenta de um modo tão misterioso como óbvio.

Tento recuar e vou por aí, cruzando anos e épocas até chegar às muitas horas passadas sozinho na infância.

Primeiro o desenho. As revistas e os álbuns de banda desenhada lá de casa que me fizeram querer aprender a desenhar. Lembro-me de ter 10 anos e de estar muito feliz por ter compreendido como se desenhavam mãos, mais precisamente a forma como o polegar se articula com o resto dos dedos.

Depois a música. Adolescência infeliz que a guitarra veio contrabalançar. Horas e horas naquele quarto minúsculo, maravilhado com a harmonia e suas matemáticas improvisadas que me abririam as portas para tocar em bandas.

Por fim, a escrita. Nascida da leitura, e  inicialmente confessional, haveria depois de se focar na engenharia de histórias longas, no gosto pela ficção e seus mecanismos.

Então, espantado, percebo que os meus dois grandes amigos, para mim como irmãos, estão ligados a isto. Um, com o qual toquei e fiz música na juventude, e outro com o qual, antes de ambos termos romances publicados, passei horas a falar sobre livros, autores e escrita.

A solidão precoce, de onde nasceu a minha vontade de criar, acabaria por me trazer os meus dois amigos mais próximos. Talvez seja por isso que ela, embora visita rara, é um traço do meu caráter que acarinho.

19
Out17

Olhos vermelhos

Passo pelas caixas de fruta expostas no passeio. O dono da mercearia sai da carrinha com uma embalagem de plástico cheia de alfaces. Cumprimentamo-nos quando nos cruzamos. É um homem um pouco mais baixo do que eu e que deve, talvez, estar a meio dos 50. É um pouco cheio, tem o cabelo e barba grisalhos. É uma pessoa simpática e cordial, mas hoje há algo que trava a sua voz como uma sombra.

Lembro-me de que tenho de levar leite, de modo que volto atrás e entro na loja, onde é tudo muito mais caro do que nos supermercados a que costumo ir. O facto de ficar na minha rua, a meio-minuto de casa, conta mais em quase-emergências como esta.

Pego em dois pacotes e dirijo-me para a caixa. A dona, que estava a arrumar umas prateleiras, aparece sem o seu habitual passo decidido. Tem uns olhos vermelhos que, somando ao que detetei na atitude do marido, me faz perceber que aconteceu alguma coisa.

Chegado a casa, comento a tristeza e a minha mulher explica-me que a aldeia deles tinha ardido. Tinham morrido pessoas que eles conheciam e houve familiares e amigos que ficaram sem nada.

Vou à janela da cozinha para olhar a mercearia lá em baixo. A seguir olho em volta, para os prédios, para o absoluto urbano em que passo os meus dias. Se é certo que estas casas e prédios nunca serão ameaçados por incêndios mortais como os deste verão e outono, de certa forma estes chegaram cá e arderão para sempre na memória dos que perderam conhecidos, casas de família e que viram os locais onde nasceram serem devastados e não há nenhuma pirueta de estilo possível para terminar em grande um post sobre isto.

 

18
Out17

A comum verticalidade gelatinosa de Constança

No que diz respeito à demissão da ministra da administração interna, há ainda mais um péssimo aspeto a realçar.

A ministra recusou sempre a necessidade da sua demissão e agora sabe-se que a andava a pedir ao primeiro-ministro desde junho.

Foi hipócrita com os cidadãos, a quem devia lealdade e integridade nas funções que desempenhava, preferindo, ao invés, ser leal ao seu chefe. Escolheu ser vista como uma pessoa sem espinha, uma mulher sem valor, a prescindir dos favores do chefe. Ou seja, mais uma evidência de que não se pode confiar na palavra de políticos. Foi esse mais um dos péssimos serviços prestados ao nosso país.

Chegados a um ponto em que a veracidade das palavras, para quem as diz, é irrelevante, a banalização da mentira tornou-se um aspeto da vida tão legitimo e aceite como dizer a verdade.

A lógica e a prudência, a minha experiência, dizem-me para não confiar em mais nenhuma palavra de António Costa e isso é uma coisa terrível. Só me tinha acontecido com um outro primeiro-ministro e esse tem em cima 31 acusações por parte do MInistério Público.

17
Out17

Filiação

E continuo com eles a mandar, políticos de quem não é fácil dizer bem quando chegam as dificuldades fora do jogo parlamentar/partidário. Ou seja, quando factos tramados e a vida, ou morte, dos cidadãos se impõe na agenda.

Assisto à performance de um secretário de estado a dizer que as pessoas têm de ser mais proactivas (não esperar pelos bombeiros para combater os fogos) quando houve mortes de gente por causa dessa iniciativa em defender das chamas o que era seu.

Ouiço uma ministra dizer que se fosse demitida, ao menos, iria ter as férias que não pôde gozar devido aos incêndios. Isto, quando o seu primeiro-ministro estava de férias enquanto acontecia Pedrogão Grande.

Registo, quem me dera que incrédulo, as palavras de um primeiro-ministro a dizer ao país que nos devemos habituar a estes cenários e a assegurar-nos que este tipo de calamidades irá acontecer mais vezes.

Fico desanimado quando é evidente que não há homens e mulheres de valor a comandar os destinos do meu país. Não só Costa, mas também Passos, com as reformas que não se atreveu a fazer. E antes dele Sócrates, o criminoso, Santana, o medíocre, Barroso, o desertor e Guterres, o cobarde. Mais para trás, não tenho nada para dizer. Foi com Guterres e o seu pântano que comecei a acompanhar.

A parte positiva de isto tudo é ter-me trazido a necessidade de participar na política.

Filiei-me hoje, pela primeira vez, num partido. É uma sensação muito curiosa.

16
Out17

Digital junkies

Estou na fila do autocarro, imerso na leitura da descrição dos primeiros dias de um anarquista russo na Londres do inicio do século passado. À minha frente, um homem nos seus quarenta liga o altifalante do seu smartphone e ficamos todos a ouvir uma longa discussão em francês de um video do youtube. Atrás de mim, há já uns minutos que se ouvem os sons de um jogo de guerra vindos de um outro telemóvel que uma mãe teve a amabilidade de colocar nas mãos do filho, que certamente não terá ainda 10 anos.

Entalada, a narrativa dos planos de assassinato do conde Orlov por parte de Feliks, o anarquista, vai sendo interrompida por palavras que sobressaem em momentos gritados à frente – merdeux e ça ne marche pas – e explosões, rajadas de metralhadora e Go, go, go atrás de mim.

Fecho o livro, incapaz de continuar a leitura.

Antes existiam os rádios a pilhas com que alguns homens andavam por aí a ouvir emissões AM. Pode ser que estes comportamentos sejam a evolução lógica natural/digital. Penso ainda naquele tipo de toxicodependente que se injeta em público, mas isso talvez seja ir um pouco longe demais. Os toxicodependentes parecem ter um pouco mais de decoro.

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