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Micropaisagem

Micropaisagem

13
Set17

O falhanço e a cobardia

A mais pequena aparece na sala de galochas com brilhantes, analisando cada passo como se estivesse a preparar uma expedição. A outra escreve o seu nome nos cadernos e materiais escolares com que se prepara para atacar a 2ª classe.

Hoje de manhã, eu e a minha mulher dividimos as reuniões com a professora da primária e com a educadora de infância. É o último dia de férias das miúdas. Estamos a meio da tarde. Respira-se um ar de antecipação de grandes coisas. As meninas estão mais calmas do que à partida eu esperava. Estão, dir-se-ia, concentradas.

Há dois dias fiz mais de 700 quilómetros. A mais velha entrou no curso que desejava em Braga. Queria-o tanto que não se candidatou a mais nenhum. Se não tivesse nota, arranjava um emprego e para o ano tentava outra vez. Aí, já colocaria mais opções. 

Enquanto visitávamos o seu quarto na residência de estudantes, eu pensava no orgulho que sinto por ela ter a coragem que tem. Sei que tem medo e dúvidas acerca de conseguir, mas, de algum modo, ela sabe que a vida de adulta é diferente da que até agora teve e que chegou a altura de ir buscar e lutar sozinha pelo que quer, nem que para isso se tenha de estabelecer numa cidade em que não conhece absolutamente ninguém. Referiu-me colegas da secundária que os pais não deixaram concorrer para fora de Lisboa, alguns por não se quererem separar dos filhos e outros porque não confiam neles. Quanto a mim, como não confiar em alguém que é capaz de demonstrar desta forma o que pensa: antes o falhanço do que a cobardia.

Penso nisto enquanto vou para a marquise fumar. Começo depois a imaginar o desenvolvimento de um  personagem do romance que estou a escrever quando vejo uma águia de asa redonda aos círculos mesmo à minha frente. Chamo de imediato a minha mulher, que interrompe o seu trabalho de ilustração para aparecer com os binóculos. Enquanto ela comenta que já a tinha visto por aqui, eu penso no sentido que estas quatro mulheres trazem à minha vida.

Agradecido e de coração sempre apertado.

 

 

 

 

 

 

12
Set17

Uma nova trela

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- Quando é que se tornou normal o lançamento de uma nova versão de um produto americano ser seguido em direto por jornais portugueses?

- A partir do momento em que os jornalistas tugas não são capazes de viver sem esse produto.

- Mas aquilo não é publicidade grátis para um produto que está no mercado com centenas de concorrentes?

- É. Mas não importa.

- Mas como "não Importa"? Não pode ser!

- Tanto pode que é. Faz parte da ideia de que a questão tecnologia está acima desse tipo de problemática. Tem um outro estatuto porque é consumida por milhões, percebes? A deontologia vai á casa de banho e perde-se por lá quando os jornalistas estão envolvidos emocionalmente ou quando há muitas pessoas a querer uma coisa.

- E ainda por cima tratando-se do iphone.

- A Apple é uma espécie de religião para os jornalistas, acho eu.

- Ou então paga bem.

- (riso) Não! Os jornalistas não são assim tão inteligentes. A esta altura são putos aos saltinhos e a fazer contas à vida. Só sabem que têm de comprar aquela nova trela.

- Como o resto das pessoas...

- Isso! Como o resto das pessoas.

 

 

 

05
Set17

David C.

Ontem vi o David C. na estação de comboios a distribuir publicidade ao pé das escadas rolantes. Estava no meu caminho e evitei-o, não fosse ele reconhecer-me.

O David era amigo de amigos meus de juventude. Deve estar a meio dos 40. Falei em algumas ocasiões com ele e até lhe dei uma vez boleia há uns anos.

Os amigos do David gozavam um bocadinho com ele, o que se entendia. Tem de certeza um ligeiro traço, ou de autismo, ou de atraso, nunca percebi. Parecia ser tão inteligente a raciocinar quanto inepto para manter uma conversa simples. A sua incompetência social é flagrante. 

Ontem vi o David C. na estação de comboios. A sua grande cabeça. O cabelo grande e espetado. Os óculos de lentes profundas. A cara meio gordurosa, marcada. Feio. Olhos demasiado afastados. A sua figura causa repulsa. Ao andar ou correr parece um pouco descoordenado. E lembro-me dele no meio do público na primeira vez que toquei ao vivo com alguns desses amigos comuns. Batia palmas com demasiada força, fora do ritmo, em esforço.

Ontem vi o David C. e fiquei a pensar nele durante estas 24 horas. Com pena. Com tristeza. Nunca terá filhos ou uma mulher que o ame. Provavelmente não tem um amigo que o procure porque precisa da sua companhia. Com dor, tentei imaginar como terá sido quando percebeu que não era como os outros meninos, que não corria tão bem ou que ninguém o desafiava para algumas brincadeiras. Quando se terá apercebido do riso que causava? Não consigo imaginar uma vida assim.

Ontem vi o David e lembrei-me das histórias que ouvi dele. É um tipo com uma coragem do caralho, que tem um curso superior de direito, que nunca vira a cara à luta e que já deve ter tido muitos empregos. Uma vez vi-o lá na empresa, à entrada junto à rececionista, a preencher formulários para ser vendedor. Dessa vez também não lhe falei.

Ontem, na vinda do emprego naquela empresa onde estou há mais de 10 anos, vi o David C. na estação de comboios e depois apanhei o autocarro para casa, para junto da minha família. O não ter-lhe dito olá...não consigo deixar de pensar que foi uma das coisas mais vergonhosas que já fiz na vida. Porquê é que digo isto? Porque estou a sentir o que estou a sentir, foda-se.

03
Set17

Esquerda, volver sempre!

Em dois dias, o fortalecimento da razão de nunca mais votar na extrema esquerda.

Numa entrevista ao DN conduzida por Fernanda Câncio, sim por Fernanda Câncio, esse exemplo de imparcialidade intelectual e política mais conhecida por ter sido a namorada ingénua de Sócrates, Mariana Mortágua diz que não vê nada de mal na recomendação da CIG acerca dos livros de exercícios da Porto Editora. "Para que crianças de quatro anos não fossem expostas a um material que achamos que não cumpre os critérios. Se aquele material fosse racista acho que não havia esta polémica. Incomoda-me quando se usa a questão da liberdade de expressão e da liberdade de sociedade para tentar manter opressões. "Porque eu tenho liberdade de ser sexista" - não, não, desculpa, não tens". Mais à frente defende a liberdade individual como uma espécie de principio, mas não dá para acreditar. Quer dizer, dá para acreditar que ela tem um discuros tonto que se contradiz à força toda. Na minha opinião, o BE no governo seria um multiplicar de proibições/recomendações contra materiais que eles acham que não cumprem os critérios alargados a tudo o que fosse uma chatice para os seus sonhos húmidos de engenharia social.

 

Já hoje, o camarada Jerónimo disse, na festa do Avante, que o "imperialismo norte-americano" é o "responsável por uma criminosa escalada de confrontação que, a não ser travada, conduzirá a Humanidade à catástrofe", referindo-se à questão nuclear na Coreia do Norte. Disse ainda que "A URSS e o sistema socialista marcaram as conquistas e avanços históricos conquistados durante o século XX pelos trabalhadores e os povos na sua luta de emancipação social e nacional. O seu desaparecimento representou um imenso recuo para as forças da paz e do progresso social, nos direitos dos trabalhadores e na soberania dos povos." Se a segunda declaração pode ser tomada só como um desvairo, uma espécie de uivo enlutado toldado pela melancolia, já a primeira não engana na sua capacidade socialista clássica de redefinir a realidade, ou eliminar liberdades, desde que isso sirva o que eles chamam de Revolução. Não me iludo. O PCP no governo mandaria matar milhares. Sim, estes mentecaptos prenderiam e matariam milhares.

 

Penso ainda nos artistas que ao atuarem na festa do Avante apoiam as ideias políticas que nele correm. António Zambujo, Rui Veloso, Gisela João, João Gil e Manuela Azevedo a assinarem por baixo deste tipo de discurso é uma ideia curiosa. Não fazia ideia de que para eles a Coreia do Norte e a URSS sejam exemplos de paraísos sociais.

 

Bom, talvez exagere. Talvez seja eu que preze demais a Liberdade. Talvez uma boa parte dos meus compatriotas tenha razão em não a ter assim em tão boa conta, pelo menos os vinte e tal por cento que votaram nestes dois partidos.

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