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Micropaisagem

Micropaisagem

29
Jun17

Tiraram o futebol a essa criança

O jogo era só o campo. Os nossos contra os rivais. Os jogos tarde dentro, prédio contra prédio, rua contra rua, turma contra turma.

A primeira noção de heroísmo vinha desses homens que vestiam com orgulho a camisola da sua equipa perante milhares. Os sacerdotes da alegria e da tristeza prometiam-nos que poderíamos aspirar à glória se fossemos como eles. E por isso, sem o saber dizer,  jogávamos sem parar, mimetizando gestos, ouvindo imaginárias ovações no descampado deserto ou na cama, à noite antes de dormir.

Chegavam-nos os seus feitos pelos relatos de domingo à tarde ou nos poucos jogos televisionados a preto e branco, narrando sucessões de gestos mágicos, movimentos de bailado, saltos de gato, arranques de mustang perseguido em fuga pela pradaria, salvamentos in extremis que faziam disparar o coração e, enfim, o momento do grito desamparado, louco e suficientemente longo para gritarmos nós também, darmos saltos, talvez até chorarmos, enquanto a tarde lá fora se interrogava acerca do paradeiro de toda a gente.

Tiraram-me isso tudo. Disseram-me com crueldade “O futebol é um negócio de mafias e intrigas”. O jogo não é só o campo. Nem é quase campo. A máquina que o alimenta é feia, gerida por homens sem carácter, que não sabem o que é heroísmo, virtude, abnegação, desportivismo e mérito. Afinal o meu amor tinha sido entregue  a algo feio, a um tipo de coisa que os meus pais me ensinaram a evitar, um lago apodrecido no escuro da conspiração e da trafulhice, onde vermes se alimentam hoje dos jogos e da vontade de sonhar que aquelas crianças derramavam pelos longos dias da sua infância.      

28
Jun17

O racismo na educação em Portugal

A minha reação de estranheza a este artigo fez com que fosse perguntar a algumas pessoas, brancas, se achavam que os portugueses eram racistas. Todos me responderam que sim, o que me deixou ainda mais baralhado, talvez por eu não ser racista e tenda a ver indivíduos em vez de ver cor de pele.

Moro num local bastante multicultural, digamos assim, e a vantagem de andar de comboio e autocarro todos os dias facilita a observação do comportamento das pessoas. No último ano só vi duas manifestações públicas de racismo. Ambas na sequência de discussões entre passageiros, o argumento de raça surgiu já quando as portas se estavam a fechar e os intervenientes já não podiam continuar a discutir.

Talvez isso confirme que existe racismo nas mentes de muitos dos meus concidadãos. Sim, se pensar bem, se pensar num número suficiente de pessoas, posso dizer isso: as pessoas tendem para o racismo em termos individuais.

No entanto, o artigo, segundo julgo perceber, envolve  a palavra num contexto político, via vertente educação. O termo racismo passa então a ser "A sociedade portuguesa discrimina as pessoas de pele negra porque as chumba e envia mais para os cursos profissionais".

Ou seja, a responsabilidade pessoal pelo percurso académico deixa de existir e passa a ser do Estado. Englobado agora num grupo discriminado, o individuo já não existe, com a sua história, ambiente familiar e económico, sendo substituído pela pertença a um coletivo. Não interessa qual a sua medida de esforço pessoal e o dos pais na progressão escolar, uma vez que são os professores e o sistema os responsáveis pelo seu insucesso.

As questões de raça não têm um exclusivo desta abordagem. Todos os casos que envolvam minorias ou direitos têm tendência para ser afetados.

Há uma parte do texto que ressoou de um modo particular em mim.

Podemos achar, claro, que é por conformismo, desistência, falta de esforço. Mas muitos dos que nem sequer tentam foram atingidos pelo racismo institucional. Porque não é uma questão de chegar ao 10.º ano e desistir - a vontade foi cortada antes. A falta de ambição, a ausência de amor-próprio, são construídas. Numa fase de construção de carácter, a criança sente que não acreditam nela, que não se puxa por ela. Convence-se de que não merece. Interioriza uma imagem que não é boa."

Quando estudava, nunca pensei que alguma vez poderia ir para a universidade. Era algo adquirido por quase todos os estudantes. Isto só não acontecia com os marrões e para os com dinheiro, que poderiam frequentar as recém criadas universidades privadas. O ambiente era esse e consigo perceber ambições pessoais cortadas bastante cedo. Só não entendo é como é que essa responsabilidade, em vez ser da família, tem de ser da sociedade. Esta minha questão parece ser pertinente quando a seguir se lê, num outro testemunho de alguém que é negra e estudante universitária:

"Fiz o ensino básico na Damaia, numa escola complicada. Depois mudámo-nos para o Barreiro. Quando entrei no sexto ano só havia outra rapariga negra na turma. Mas os meus pais tinham um controlo muito grande sobre o meu percurso, puxavam muito por mim e tinham muita atenção a pequenas agressões que foram acontecendo. E acho que acabei por ter sorte com os professores." 

Tornar alguém vítima de um modo institucional, isto é, os negros que não conseguem tirar cursos universitários porque não os deixam, não será, certamente, o caminho ideal. Isso só faria sentido se a maioria dos desistentes nas mesmas circunstâncias não continuassem a ser brancos. Se as crianças negras são tratadas pior desde o infantário, duvido. Mas aceito que assim possa ser por falta de informação minha. Sei é que a família é fundamental. E aqui, sejamos claros, poderá estar a chave fundamental da questão. A educação familiar que tem delegado na educação do Estado a transmissão de valores.

Ensinar alguém a justificar-se como vitima sistémica não é um bom caminho. Antes, acho que ensinar a trabalhar para perseguir um ideal de futuro, que como para quase toda a gente nunca está assegurado, e ensinar em ir mais além na escola se se encontrar professores racistas, dotar o individuo, essa personalidade que não tem raça, mas um nome e características únicas, das ferramentas para acreditar em si.

 

 

   

 

 

 

 

 

27
Jun17

Uma tribo de dois

Ao assistir ao fenómeno das claques nas caixas de comentários, e nas conversas em que participo, sinto que nasci incompleto. Defendem-se clubes, partidos, religiões, assuntos das notícias, raças e ideologias de um modo tribal ao qual sou, infelizmente ou não, autista.

Na infânica, enquanto os outros miúdos idolatravam jogadores de futebol (Chalana, Manuel Fernandes ou o Gomes, por exemplo) eu achava-os a todos só excelentes jogadores. Quando na adolescência, por causa da música, muitos se vestiam de determinado modo, ou tinham os quartos e cadernos repletos de posters e fotografias, eu nunca dei esses passos, apesar da música ser tão importante para mim. Já adulto, a política e o futebol são os campos de devoção que me escapam. Impressionam-me os idiotas úteis a defender partidos por ideologia, ou simples tacanhez mental, e alienados a considerar o seu clube como religião. Mas a verdade e que, se fico estupefacto porque me parecem estar nesses comportamentos as raízes de muitos dos males da humanidade, também sinto que me falta essa parte, esse defender sem ligar à razão. Tenho o meu clube e tenho simpatia por uma ideologia, mas sem essa noção de pertença.

Após refletir algum tempo sobre isto, penso que terá existido uma exceção: Jesus Cristo. Já não frequento a Igreja há mais de 20 anos e não me considero católico ou protestante, mas o facto é que a virtude de Jesus me marcou de tal modo que ainda hoje é o meu modelo de vida. Ele é o meu ídolo. Sei-o porque acho quase insuportável ouvir falar contra ele ou teorias que colocam em dúvida a sua existência. Quando se trata de o insultar diretamente, apetece-me chorar de raiva. Não chegando ao ponto de querer discutir o assunto ou defendê-lo, se o diálogo não é possível, afasto-me como me afastaria se alguém estivesse a magoar alguém que amo com palavras.

Talvez eu não seja assim tão diferente, afinal de toda a gente. Aconteceu-me foi a fasquia estar o mais alta possível e ninguém, qualquer organização ou ideologia conseguirem lá chegar. No fundo, talvez tenha a mesma arrogância que todos, só não a consigo, ou quero, partilhar. Afinal, trata-se de uma tribo de dois.

26
Jun17

O homem apaixonado pelo cão

G tem um cão há uns meses. Afeiçoou-se ao animal e atribui-lhe a libertação do estado depressivo causado pela situação de desemprego de longa duração em que se encontra. Pelo seu discurso é bastante evidente que o bicho é mais importante do que qualquer humano que não pertença ao seu círculo íntimo. Como gosta do cão, não o passeia com trela. Se aquele, e costuma fazê-lo, corre para ladrar ou morder um estranho ou conhecido, desde que este esteja fora do tal circulo íntimo, o problema está na pessoa em causa se reagir com agressividade à agressividade do cão.

Tem, portanto, o raciocínio, ou quase raciocínio, de um homem apaixonado. Ou talvez de um pai. Encontra-se incapaz de perceber o medo e incómodo que os outros sentem pela ameaça que o cão representa. Se se lhe tenta demonstrar que talvez isso não esteja correto, mostra-se surdo ao mais simples argumento de senso comum acerca do assunto: e se fosse uma das suas filhas, ou ele próprio, a serem atacados?

Para mim não é um caso inédito, longe disso. Para mim é um facto concreto e indesmentível que as pessoas tendem a respeitar mais os seus bichos do que os alheios, tal como acontecerá com as pessoas que não conhecem bem. Estes casos ajudaram-me a perceber a necessidade de leis que nos protejam uns dos outros. Quem diz cão, diz roubo, barulho, lixo ou road rage. A falta de respeito pela tranquilidade e paz dos que nos são desconhecidos, a indiferença perante o seu sofrimento e desconforto quando causados pelos nossos, são responsáveis por muito do mal que nos rodeia.

De qualquer modo, fica o aparente paradoxo: como é que o amor a uns pode causar sofrimento direto a outros? Isto é, como é na mente de G o carinho por um cão pode relativizar o facto de ele poder morder ou aterrorizar uma criança?

 

23
Jun17

Traços de outono

J comenta comigo que a sua mãe está tão fraca, tão diferente da mulher que sempre conheceu.

 

Foi buscá-la a casa para a levar à festa do final do ano no infantário da pequena L. Mostra-me fotografias. A menina, vestida de flor, está entre outras meninas flores e uma borboleta de vestido azul parece pairar no meio delas. Numa das imagens vê-se a avó, curvada e magra,  em primeiro plano, a assistir a uma dança das flores sob um toldo decorado de balões.

 

- Quando a fui levar a casa disse-me «Obrigado», mas de uma maneira diferente. Ouvi-a agradecer-me a vida toda, mas não assim, como alguém que sabe que já não pode fazer as coisas sem ajuda dos outros.

 

Gosto muito da mãe de J. É a pessoa mais bondosa e humilde que conheço e que conhecerei. Penso na minha mãe, que já com os filhos adultos ainda subia às figueiras para colher esses frutos que adora e que hoje mal consegue andar por causa da artrite. Penso na mãe do meu amigo C, que sempre vi ativa, e de olhar vivo, e que agora, com Parkinson, é também um esboço, um pequeno resumo da mulher que conheci.

 

 - Não me consigo habituar – diz J, emocionada.

 

- Ainda bem. Não nos podemos habituar – respondo.

 

Elas merecem que não nos habituemos. Esses traços esbatidos de quem elas foram podem doer e afligir-nos, mas isso quer dizer que estamos a fazer justiça às cores brilhantes, vivas e aos contornos bem definidos que nós sabemos que, verdadeiramente, as compõem. Isso significa que ainda as vemos como gostaram de ser.

22
Jun17

A fé rodeada pelo fogo

L esteve em Pedrógão Grande, isolada numa casa com as netas. Falou-me do desespero que foi não poder fugir e ter de esperar que o fogo não atingisse a casa. Telefonou à sua filha, aflita em Lisboa. L pediu-lhe desculpa por não conseguir salvar as duas crianças de seis anos. Felizmente para avó e netas, enquanto as casas à volta ardiam, a sua acabaria por passar incólume.

Falou-me da Fé que tem em Nossa Senhora de Fátima e em como acha que as orações que ela e as netas fizeram sem parar foram determinantes. Cá em Lisboa, também a filha pedia a intercessão de Deus. Desesperada ao início, L disse-me que a filha, a partir de certo ponto, foi convencida por Ele de que nada aconteceria. Sentiu então uma grande paz.

Não foi o único relato do género que ouvi ou li. Lembro-me de um ateu inglês, preso também numa casa rodeada pelo fogo, dizer que todos eles, às tantas, estavam a pedir a Deus que os salvasse.

A fé de L e da família devem ter saído reforçadas, num exemplo de que nunca se esquecerão e que alimentará, talvez, a sua devoção durante o resto das suas vidas.

A fé parece-me ser um mistério poderoso que surge em momentos extraordinários. Quem o experimenta, vive-o de um modo tão primordial que não pode ser mensurável nem disputado pela ciência ou opiniões alheias. Cabe dentro da experiência mística, não da religião, e tem fundamento numa só premissa: é a fé que vem ter connosco, apresentando-se por vezes brutal e despoletada pelo pavor, outras em ondas de harmonia e de êxtase inesquecíveis.

21
Jun17

Life - Filme

 

Nos bombeiros o bailarico avança com um ensemble de top hits de música ligeira. O Apita o Comboio acabou de dar lugar a um tema que não reconheço. Talvez por ser meia-noite, talvez por estar tanto calor no quarto, talvez por irritação, durante esta maratona pimba só consigo reparar na linha de baixo, há cerca de 20 minutos a servir todas canções com a mesma cadência e notas. Não sendo certamente caso de poder sofrer uma crise pessoal em que seja obrigado a reavaliar tudo o que sei sobre o mundo e sobre mim, a constatação da ubiquidade da performance do baixista faz-me refletir.
De um modo muito primordial, quase infantil, nunca consegui aceitar bem a ideia de repetição de soluções na arte em geral. Claro que temas de Quim Barreiros ou Toy poderão nem sequer ambicionar o estatuto, como acho que não ambicionam. Quem diz música ligeira, diz pop da Rádio Comercial, livros de amor de Nora Roberts ou mais um Velocidade Furiosa.
Existe uma indústria que pega em modelos e os repete até à exaustão e existe público para aceitar com alegria o mesmo prato requentado vez após vez. Afinal de contas, é só entretenimento. As pessoas querem distração com algo que à partida já sabem que gostam.
O filme Life é assim: uma espécie de lasanha do Lidl cozinhada no microndas. Sabemos que aquilo não é uma verdadeira lasanha, mas aceitamos ser enganados por aquele molho, queijo e carne porque gostamos de lasanha. Só que desta vez, fui enganado, talvez por mim próprio, porque pensava mesmo que aquilo era fresco.
Aconteceu-me o que se costuma referir como ir ao engano. Do mesmo modo que não leio José Rodrigues dos Santos, porque sei do que se trata e porque o homem escreve com o sovaco, não deveria ter perdido aquele tempo a assistir a um filme que se veio a revelar uma desilusão ultra congelada.
A trama inicial promete. Pela primeira vez na História, um grupo de cientistas na Estação Espacial Internacional faz uma experiência com células alienígenas descobertas em Marte. Ao conseguirem ativá-las, a algazarra mortal, e sobretudo sangrenta, começa.
Muito bem filmado, com excelentes e discretos efeitos espaciais, com bons atores, Life começa a escapar-nos entre os dedos quando começamos a rever todas as soluções habituais em filmes com gente fechada dentro de naves de que não consegue sair: o bicho desenvolve-se rapidamente e revela-se, não só um predador letal, mas também possuidor de uma inteligência e perspicácia infalíveis; os astronautas vão morrendo um a um, espalhados pelos diversos módulos da estação; há um passeio espacial que corre mal, naturalmente; uma parte da nave desintegra-se; nos momentos exatos, os protagonistas perdem a sua lucidez e cometem erros por causa da emoção com consequências trágicas; há cápsulas de salvamento ativadas para tentar resolver a situação; há pessoas dentro de cápsulas de salvamento cuja última participação são gritos de desespero enquanto são atiradas para o espaço profundo; a última cena é a preparação para um potencial segundo filme.
Quase que se tem pena do argumentista, fechado, também ele, dentro daquela nave com um monstro que é aquela história. Vendo bem, tentando ser justo, é um espaço demasiado pequeno e apertado para que alguém possa fazer o que quer que seja de inovador. Os tipos estão sozinhos até chegar uma Mir, supostamente para os ajudar. Mas, mesmo aí, daí a 5 minutos já a nave russa está aos pedaços na órbita terrestre e destruiu no caminho um monte de material da estação internacional.
Gostando dos trabalhos anteriores de Hiroyuki Sanada e Jake Gyllenhaal, os seus personagens são de uma espessura mínima. Mas a verdade é que não têm tempo para mostrar mais. Estão preocupados, a lutar pela vida, como, deixa lá ver, Ripley, em Alien. No fundo, é o bicho. Sempre o bicho.

 

 

20
Jun17

Judite de Sousa e os Mestres de Cerimónias

Vejo Judite de Sousa com cadáver em fundo e empoleirada num reboque, encostada a um carro incenerado. Não consigo deixar de pensar que, além de a um grande mau gosto, as duas imagens devem quase tudo à cultura da selfie.

Como não entender a senhora, se hoje em dia se tornou normal querer aparecer? Onde antes existiam pedidos de autógrafos,  fotografias normais de alguém aos pés de uma catedral gigante, bilhetes de concerto emoldurados no quarto e frases do estilo “Paulo 17/04/1985” rasuradas com canivete numa árvore, existe hoje a ânsia das fotografias com celebridades, caras enormes à frente de monumentos,  grupos de sorrisos com palco de festival musical lá atrás ou paisagens desfiguradas por alguém a querer dizer “estive aqui”.

Não sei bem o que achar de tudo isto. Sei só que não pratico e que se o fizesse me acharia tonto. Ocorre-me a palavra “Eu” repetida muitas vezes. Os lugares, momentos e pessoas estão hoje submetidos, mediados pelas identidade sélfica, que é, sem dúvida, mesmo muito importante. A vida à volta, aquilo que acontece para além do self, só vale a pena ficar registado, parece, desde que participe e fique registado como ator principal. A memória silenciosa do que se passou ou de onde se esteve não basta. É necessário ser o Mestre de Cerimónias.

Judite de Sousa usou a linguagem social, a irrefletida exposição e os gestos narcísicos banais de hoje, dos nossos dias.

Hesito entre o que é mais intrigante: aquele trabalho jornalístico ou desconfiar que muito boa gente tiraria selfies similares se lá estivesse naquele momento.   

19
Jun17

A perspectiva impopular

De quase todos os cantos surge a sentença de que estamos a viver um período de pesadelo. Os mais velhos dizem que tudo está pior, os de meia-idade dizem-se desiludidos e os mais novos parecem estar à deriva e são dados como sem esperança.

Ataques terroristas e aquecimento global, escassez de emprego e de dinheiro, quebra de confiança nas instituições democráticas e notícias de corrupção, tudo a correr em mensagens muito rápidas como legendas num filme de televisão.

As ondas de aflições, condenações e indignações de hoje não deixarão rasto visível quando as de amanhã lamberem a praia empurradas pela maré. Entretanto, as marcas ficam, anónimas, a força da água desgastando vez após vez a certeza e o otimismo e alimentando a ansiedade.

E, no entanto, nunca se viveu melhor. Sei-o enquanto sinto a água quente, a comida no frigorífico, o automóvel à porta, as minhas crianças acarinhadas e protegidas pela medicina, os tempos de lazer que possuo, as máquinas em casa que simplificam a vida, a informação disponível e a cultura tão diversa a tão poucos passos de curiosidade.

Penso nisto enquanto estou na estação do comboio, esperando um transporte à hora certa com destino a muitos quilómetros de distância, sem medo que alguém me faça mal ou seja violento comigo, ouvindo Vivaldi, escolhido entre as centenas de música no ipod. Não existem animais selvagens por perto, a tecnologia promete a maior revolução de sempre nas vidas humanas e dizem-me que, correndo tudo razoavelmente bem, poderei contar com mais cerca de 40 anos de vida.

Comparando com há 100 anos atrás, hoje mais de metade das crianças já não morre antes dos 3 anos de idade. As principais doenças de contágio estão erradicadas e não são mortais. Trabalha-se oito horas por dia e há dois dias de descanso por semana. A televisão e a internet dão entretenimento e cultura. A eletricidade é omnipresente e a escuridão passou a ser só uma opção.

Sim, a escuridão passou a ser só uma opção. 

 

18
Jun17

Pedrógão Grande - exceção entre milagres anuais

Uma das consequências de ter deixado de ver televisão, abandonado as redes sociais e não ter smartphone é, de vez em quando, ser surpreendido pelas capas dos jornais.


A senhora brasileira tinha acabado de abrir o café. O cabelo ainda molhado e o vigor com que esfregava cada um dos tampos das mesas pareceram-me sinalizar, não sei bem porquê, contrariedade em ali estar às 8 da manhã de domingo. Confirmei-o quando, único cliente no estabelecimento, pedi um abatanado. Ao perguntar quanto era, ela respondeu «50 cêntimos» num tom que parecia um empurrão a avisar-me para me afastar.


Havia dois jornais de hoje em cima de uma das mesas. Um deles o obrigatório Correio da Manhã e o outro o Record. (se é Record, o dono é do Sporting, se é A Bola, é do Benfica). A primeira página do Correio da Manhã chamou-me a atenção. «20 Mortos» em letras garrafais sobre uma imagem de um carro ardido. Soltei um inadvertido «O quê, 20 mortos?»


A senhora começou então a falar. Sabia muito sobre aquele assunto mortal: 500 bombeiros,400 carros, pessoas presas em viaturas a arder, trovoada, vento muito seco e uma explicação detalhada e muito criativa de como a folha do eucalipto, quando arde, voa e vai plantar o fogo «para lá, bem lá prá frente». Enquanto mo explicava, diria agora entusiasmada, ligou a televisão para que eu comprovasse o que ela estava a dizer. Os mortos já eram 40 e o presidente da república comentava a situação. Ao ouvir a jornalista dizer que estava comprovado que o fogo tinha nascido por causas naturais, o ânimo da senhora voltou a esmorecer, soltando um «ah, então não foi criminoso...»


Enquanto eu digeria a informação, chegou uma cliente, ao que parecia habitual, com quem a empregada do café, talvez dona,  comentou brevemente o incêndio e suas vitimas. Logo depois, a conversa mudou para a dificuldade em dormir nessa noite, acrescentando a cliente que os seus dois cães, «coitadinhos», não tinham dormido quase nada, sempre de língua de fora , determinando assim que as vitimas do incêndio de Pedrogão Grande, cujo número de casos mortais continua a aumentar conforme o dia vai avançando, já não existiam.


Ao sair, pensava naquelas pessoas com os caminhos cortados pelo fogo, presas numa armadilha de que nunca poderiam desconfiar ao acordarem nesse dia. Será que haveria mais para saber? Será que todas as vitimas seriam as da estrada ou teria havido também casas ardidas? Abandonei a minha curiosidade ainda antes de atravessar a estrada.


Aconteceu ontem. Já poderia ter acontecido muitas mais vezes. Esta tragédia só é tão espantosa porque até agora os milagres que os bombeiros nos têm proporcionado ano após ano nos parecem a ordem natural das coisas. Mas não são nem nunca deveriam ser tomados como tal.

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