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Micropaisagem

Micropaisagem

20
Nov17

A dificuldade da pirueta na literatura

Não está em mim e, no entanto, está em tantos.

Não sei quando é que passei a achar que as comparações e as metáforas não cabiam na minha ficção. O seu uso parece-me uma fraqueza e custa-me lê-las nos livros dos outros. Acho que considero a linguagem poética um sinal de incapacidade em narrar de um modo convincente. Mas não me fico só pela censura ao escritor. Menosprezo também o leitor que acha essas piruetas algo que enriquece o livro. Não é justo, claro. Talvez devesse dedicar-me a escrever e a ler manuais técnicos, eu sei, mas, seja como for, não consigo escapar a este trejeito.     

Das cerca de duas dezenas de livros que li este ano, um terço deverá ter sido de prosa nacional. O estilo dos conterrâneos tende a ser comparativo, metafórico e poético. Falando dos quatro últimos, aqueles que tenho presentes, o resultado ficou em 3 a 1, para o lado dos acrobatas. De todos eles, O Meu Irmão, de Afonso Reis Cabral, foi sem dúvida o mais infetado. O Coro dos Defuntos, de António Tavares, embora também se recreie com o tipo de prosa referido, abusa da lírica e daquele adjetivo antes do substantivo que parece dar pinta às frases. Já Sandro William Junqueira, em Quando as Girafas Baixam o Pescoço, justiça lhe seja feita, não apresenta os tremeliques afetados mas abusa de um outro tipo de prosa que me irrita: a frase lapidar tipo sentença, moral ou não, que foi o pior que Saramago nos deixou como legado. Do outro lado da barricada ficou Joel Neto, com o seu Arquipélago. Um livro que quase me encheu as medidas, por mais uma série de razões além da de não querer parecer esperto.

Estou agora a ler mais um nacional, Pedro Marta Santos, e é por isso que estou a escrever este post. Os Dez Livros de Santiago Boccanegra apresenta em onze páginas  as seguinte dezanove piruetas:

- Os faróis prolongavam o dorso da carroçaria como a respiração de um animal.(p.20)

- conduzia o jipe como um cowboy enlaça um búfalo em agonia (p.20)

- [o jipe era] bisarma exausta pelo alcatrão que lhe ia ferindo as patas. (p.20)

- Era como se a luz que lutava para atravessar os vidros fumados (…)tivesse tocado na testa de Santiago (…)mais raio de lua do que brilho de sol.(p.21)

- Olhou-a como quem olha para um viajante que se esperou meses ao fim de um deserto cor de camelo. (p.22)

- Eduardo era um urso dócil. (p.23)

- Atravessou a noite para sair da estrada, rasgou-a como o corte de um bisturi na pele de um cadáver. (p.23)

- O animal metálico contorceu os ossos, que se partiram como ramos de bambu. (p.23)

- Era um gigante de 1.93 m, os braços como tenazes de caranguejo. (p.24)

- bombeiros e paramédico (…)avançando como formigas para as nuvens de pó. (p.24 e 25)

- Colocou a máscara, tornando a pele, tostada do lado esquerdo pelas horas de Verão ao volante, ainda mais escura. Parecia um cigano em Marte. (p.25)

- Era um cilindro de uns cento e trinta metros de comprimento, cortado ao meio por uma faca de vento. (p.25)   

- [o avião despenhado] Assim, sem mais, visto do alto parecia um monumento à arrogância. Apenas o cheiro dava significado ao festim de ligas metálicas, ao focinho do cockpit tombado no solo, à carcaça extirpada como a de um enorme albatroz que não resistira à tempestade (p.25)

- Mãos com os dedos abertos para o céu, enterradas na lama como um bonsai. (p.25)

- malas de viagem com as goelas abertas umas nas outras como se quisessem evitar os destinos dos donos. (p.26)

- ruiva como vénus (p.26)

- atmosfera obstinada como o início de Novembro.(p.26)

- agitava a fivela como um domador de feras (p.27)

- atirava o jornal para o chão, sem sequer lhe passar os olhos, e deixava-o ali, como gaivota morta. (p.29)

 

Parece haver uma predileção pela zoologia, havendo referências a um animal, búfalo, urso, caranguejo, albatroz e gaivota, para além, também, de formigas.

O interessante é que Pedro Marta Santos, apesar deste abuso, escreve com uma competência narrativa que faz esquecer (até ver) o pecadilho circense. O autor não só tem ali uma história original como consegue ter o ritmo e capacidade de, numa frase, explicar uma série de coisas.

No fundo é isto: um bom livro é sempre um bom livro, mesmo que existam alguns aspetos mais frágeis. No meu caso, como leitor, agradeço sempre que uma boa história é suficientemente bem contada para não reparar muito nos defeitos. Mas isso sou eu, que gosto de histórias e tenho vergonha de fazer piruetas em público.

14
Nov17

Uma longa espera entre o agora e o fim

Para o M, com um abraço. 

 

É dificil explicar. Estive com um grande amigo e quando cheguei a casa pareceu-me que tinha ficado a faltar qualquer coisa à nossa conversa. Felizmente, a guitarra estava à mão e agora, sim, está tudo dito.

 

 

 

13
Nov17

Como não querer publicar mais romances

Enviaram-me um link do youtube com uma recensão de agosto deste ano do meu primeiro livro. O rapaz deve ter uns vinte anos a menos do que eu. Leu o livro e falou das suas peculiaridades. Fez um resumo da história e tudo. Gastou uns 10 minutos numa apreciação bastante positiva. 

Nos comentários ao video, que teve em 3 meses cerca de 290 visualizações, compinchas de hobby prometem interesse e futura leitura. 

Portanto, um livro que volta passada mais de meia década, excêntrico na sua trajetória pela galáxia. Mesmo após ter recebido há uns anos um email da editora a dizer que iam ser abatidos não sei quantas centenas de exemplares, ele não se dá por vencido, persistente na sua teimosia em não morrer, mesmo que isso signifique preço de saldo em bancadas montadas nas estações de comboio.

Pensar que começou tão bem, tão promissor! Embalado, ou talvez retardado, por entrevistas minhas à televisão e rádio do Estado, teve o seu grande momento quando partilhou uma página na revista Os Meus Livros com As Luzes de Leonor, de Maria Teresa de Horta. 3 estrelas para as Luzes e 4 para ele, com o aparte da suprema glória de, segundo a senhora que o classificou, só não ter levado 5 porque o papel omnipotente atribuído a Deus na trama era inverosimil.

Aconteceu há muito tempo, há demasiado, a referência a mim como um autor que tinha conseguido aliar o interesse do público com o da crítica.

Terminada há quinze dias a escrita do mais recente, e embrenhado na sua revisão durante os próximos meses, não o consigo imaginar com capa, num escaparate de livraria ou numa página de jornal. Mas, por outro lado, pode ser que valha a pena. Os livros têm essa estranha tendência de ficarem muito quietos e serem apanhados por alguém a quem conseguem agradar.

  

10
Nov17

Um dia até ao fim

E um dia as pessoas que chegam à empresa têm menos vinte anos e tratam-te por você. E um dia percebes que já não te lembras de quase nada e que já não tens fantasmas à volta e que estás satisfeito com o que conseguiste fazer, com mais medo de perder o que tens do que com vontade de querer mais. E um dia os teus pais estão lentos e com dificuldade em perceber o que tu dizes e tu pensas que finalmente as coisas estão equilibradas nessa falta de compreensão. E um dia recebes um telefonema de uma filha que já mora longe. E um dia chega a revelação de que é cada vez mais difícil brincar com as outras filhas, que te escapa a imaginação para entrar no seu mundo de faz de conta ou a energia para andar a correr atrás de uma pequena quase ciclista com uma mão no selim a dizer olha em frente, não pares de pedalar. E um dia percebes que não faz diferença ter telemóvel, porque só duas ou três pessoas te telefonam e a pouca atenção que te resta pode ser dada ao que te rodeia no comboio, no autocarro, enquanto esperas, vês um filme, aos que amas, ao romance que estás a escrever, e ninguém comprará. ou a gravar a guitarra, que ninguém ouvirá. E um dia percebes que a solidão é a tua casa e foi um conceito que menosprezaste na adolescência por estupidez e que tinhas ganho muito em te teres mantido dentro das suas paredes com os teus livros, música, filmes, passeios e escrita. E um dia entendes melhor os familiares e conhecidos que quase não falam e dás como tempo perdido todo o esforço que colocaste em tentar perceber como ser apreciado pelos estranhos que te rodeavam. E um dia reconheces que não tens o que é preciso para escrever bem ou para ser um músico razoável e isso não faz mal. És o que és e nunca te sentiste tão bem depois dos sete anos de idade. E um dia apercebes-te de que já só há uma longa espera entre o agora e o fim e dás graças por o tédio não te fazer mossa. Não conseguiste e conseguiste. Não chegaste e ultrapassaste. Não viveste e criaste vida. Não sonhaste e fizeste. Não conheceste muitos mas amas tantos.

26
Out17

Sempre a descer, Lobo Antunes

António Lobo Antunes publicou 28 romances ao longo da sua carreira de 38 anos. O último, Até Que as Pedras Se Tornem Mais Leves Que a Água, chegou a semana passada às livrarias.

Mais uma vez não existe qualquer sinopse na contracapa, uma estratégia particular da Dom Quixote em relação à obra do escritor, vendido como tão excecional que basta o seu nome para, à confiança, se dar imediatamente os 20 euros do preço de capa. O cliente não precisa de saber o que está dentro do livro porque é-lhe oferecida a oportunidade de comprar António Lobo Antunes. Um cliente que faça do enredo e temática condições para adquirir um dos livros do prolifico escritor não o merece ler, não estando à altura do génio e cometendo uma insolência. «Como assim, enredo? Não seja vulgar.»

Todavia, o problema da Dom Quixote será outro: o seu autor é chato e cheira a bolor. Assim, terá de vender os seus livros como objetos de luxo, apelando à vaidade, neste caso intelectual, de quem compra livros com o selo Obra Completa (Edição ne varietur), um pouco como a Rolex fará com um palerma que compra um relógio de dois mil euros.

Infelizmente, e tendo o autor já tão poucos leitores, em que já quase ninguém parece ter paciência para aquilo, chegamos ao triste momento de questionar o talento do homem. O que se pode dizer de alguém que parece estar a escrever o mesmo livro desde há duas décadas para cá? Fascículo após fascículo, a coisa arrasta-se, cada vez mais lenta. Abre-se uma página ao calhas e lá estão os mesmos truques narrativos copy paste de sempre, o mesmo óbvio esforço em desorganizar uma história, afinal, línear – os parêntesis, as palavras fragmentadas de diálogos, os “e”, os “portanto”, os “de modo que”, os “sei lá”, os “lembro-me” ou as frase interrompidas a meio – e as personagens, da criada ao dono do Banco, a pensarem todas com as mesmas palavras.

Os livros de Lobo Antunes, quanto aos assuntos e personagens fazem-me lembrar os quadros de Francis Bacon. É, aliás, uma teoria minha de que Lobo Antunes escreve, na verdade, livros de terror. O ambiente claustrofóbico do vai à frente, vai atrás dentro da cabeça das personagens é sufocante. As alegrias são sempre passadas, o presente é sempre um parque infantil destruído pela corrupção da alma humana. E contra isto, nada haverá a dizer se se gostar dos quadros de Bacon ou se se procura uma alternativa Jornal de Letras a Stephen King. Gostos.

Reconhecendo que Lobo Antunes possa ser o grande cronista, e falo da ficção, do Portugal da segunda metade do século passado e inicio deste, acima de tudo tenho pena de que um óbvio amor pela literatura e uma capacidade tão boa com as palavras tenham sido gastos com uma imaginação e visão formal tão fracas. Ainda para mais, sofrendo o autor dessa dor de os leitores gostarem dele pelas razão que ele não quer: muita gente que gosta das crónicas na Visão, algo que ele sempre apresentou como trabalho menor, e detesta a sua ficção (a palavra é essa mesmo, detestar).

Uma última nota para mais uma capa desastrosa da Dom Quixote, e que parece uma homenagem ao filme Avatar, incapaz, no entanto, de bater a do fascículo do ano passado, uma das mais repelentes de que me lembro na sua desfigurada representação de Lídia Jorge.

20
Out17

Criação

Leio uma entrevista de Sara Tavares à hora de almoço e fico com desejo de estar em casa a melhorar aquela música em que ando a trabalhar. A seguir, leio uma outra de Jonathan Franzen e desejo estar em casa a avançar com o romance, que vai já com mais de 40 mil palavras e que estou a escrever há meses.

Noto as vontades e fico a pensar sobre elas. De onde terão vindo? Porque são tão primárias em mim?

Uma outra ideia surge, agregando-se: o desenho que, tal como a escrita ou a música, me alimenta de um modo tão misterioso como óbvio.

Tento recuar e vou por aí, cruzando anos e épocas até chegar às muitas horas passadas sozinho na infância.

Primeiro o desenho. As revistas e os álbuns de banda desenhada lá de casa que me fizeram querer aprender a desenhar. Lembro-me de ter 10 anos e de estar muito feliz por ter compreendido como se desenhavam mãos, mais precisamente a forma como o polegar se articula com o resto dos dedos.

Depois a música. Adolescência infeliz que a guitarra veio contrabalançar. Horas e horas naquele quarto minúsculo, maravilhado com a harmonia e suas matemáticas improvisadas que me abririam as portas para tocar em bandas.

Por fim, a escrita. Nascida da leitura, e  inicialmente confessional, haveria depois de se focar na engenharia de histórias longas, no gosto pela ficção e seus mecanismos.

Então, espantado, percebo que os meus dois grandes amigos, para mim como irmãos, estão ligados a isto. Um, com o qual toquei e fiz música na juventude, e outro com o qual, antes de ambos termos romances publicados, passei horas a falar sobre livros, autores e escrita.

A solidão precoce, de onde nasceu a minha vontade de criar, acabaria por me trazer os meus dois amigos mais próximos. Talvez seja por isso que ela, embora visita rara, é um traço do meu caráter que acarinho.

19
Out17

Olhos vermelhos

Passo pelas caixas de fruta expostas no passeio. O dono da mercearia sai da carrinha com uma embalagem de plástico cheia de alfaces. Cumprimentamo-nos quando nos cruzamos. É um homem um pouco mais baixo do que eu e que deve, talvez, estar a meio dos 50. É um pouco cheio, tem o cabelo e barba grisalhos. É uma pessoa simpática e cordial, mas hoje há algo que trava a sua voz como uma sombra.

Lembro-me de que tenho de levar leite, de modo que volto atrás e entro na loja, onde é tudo muito mais caro do que nos supermercados a que costumo ir. O facto de ficar na minha rua, a meio-minuto de casa, conta mais em quase-emergências como esta.

Pego em dois pacotes e dirijo-me para a caixa. A dona, que estava a arrumar umas prateleiras, aparece sem o seu habitual passo decidido. Tem uns olhos vermelhos que, somando ao que detetei na atitude do marido, me faz perceber que aconteceu alguma coisa.

Chegado a casa, comento a tristeza e a minha mulher explica-me que a aldeia deles tinha ardido. Tinham morrido pessoas que eles conheciam e houve familiares e amigos que ficaram sem nada.

Vou à janela da cozinha para olhar a mercearia lá em baixo. A seguir olho em volta, para os prédios, para o absoluto urbano em que passo os meus dias. Se é certo que estas casas e prédios nunca serão ameaçados por incêndios mortais como os deste verão e outono, de certa forma estes chegaram cá e arderão para sempre na memória dos que perderam conhecidos, casas de família e que viram os locais onde nasceram serem devastados e não há nenhuma pirueta de estilo possível para terminar em grande um post sobre isto.

 

18
Out17

A comum verticalidade gelatinosa de Constança

No que diz respeito à demissão da ministra da administração interna, há ainda mais um péssimo aspeto a realçar.

A ministra recusou sempre a necessidade da sua demissão e agora sabe-se que a andava a pedir ao primeiro-ministro desde junho.

Foi hipócrita com os cidadãos, a quem devia lealdade e integridade nas funções que desempenhava, preferindo, ao invés, ser leal ao seu chefe. Escolheu ser vista como uma pessoa sem espinha, uma mulher sem valor, a prescindir dos favores do chefe. Ou seja, mais uma evidência de que não se pode confiar na palavra de políticos. Foi esse mais um dos péssimos serviços prestados ao nosso país.

Chegados a um ponto em que a veracidade das palavras, para quem as diz, é irrelevante, a banalização da mentira tornou-se um aspeto da vida tão legitimo e aceite como dizer a verdade.

A lógica e a prudência, a minha experiência, dizem-me para não confiar em mais nenhuma palavra de António Costa e isso é uma coisa terrível. Só me tinha acontecido com um outro primeiro-ministro e esse tem em cima 31 acusações por parte do MInistério Público.

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